O “terrir” está em alta, e está ganhando filmes incríveis -e ‘Eles vão te Matar‘ (They Will Kill You) é um deles. Com o sucesso de ‘Casamento Sangrento‘ (2019) e ‘Freaky – No Corpo de um Assassino‘ (2020), Hollywood voltou a investir no subgênero que mistura comédia e terror, e o resultado quase sempre é muito satisfatório. A ideia de você aterrorizar ao mesmo tempo em que diverte a audiência é um combo muito saboroso, e esse novo filme produzido por Andy Muschietti – diretor de ‘It: A Coisa‘, mistura os dois gêneros de maneira esplêndida e divertida.
Zazie Beetz (‘Deadpool 2’) é um acontecimento nesse filme, e ela se torna uma heroína de ação no mesmo nível de Angelina Jolie (‘Tomb Raider’, ‘Salt’) e Uma Thurman (‘Kill Bill’) ao interpretar uma mulher desamparada que precisa cuidar da irmã e protegê-la do pai abusivo, mas acaba fugindo após uma confusão e vai parar na prisão.
Beetz entrega uma atuação espetacular e cheia de camadas, uma verdadeira ninja, e tem embates calorosos com Patricia Arquette (‘Medium: A Paranormal’) e Heather Graham (‘Do Inferno’).

Enquanto encarcerada, sua personagem aprende técnicas de sobrevivência e luta, que vão ser muito necessárias para o que ela vai ter que enfrentar. Em busca de sua irmã, ela vai parar no sinistro Virgil, um hotel outrora de luxo que parece abandonado. No meio da noite, um grupo invade o seu quarto na tentativa de matá-la. Logo, ela descobre que o misterioso e mortal hotel é um esconderijo de um doentio culto demoníaco, antes de se tornar a próxima oferenda em uma batalha sangrenta. Muito Sangrenta.
Violento, estilizado e com uma energia quase punk, ‘Eles vão te Matar‘ mostra que o diretor Kirill Sokolov continua sendo um dos nomes mais interessantes do cinema de ação contemporâneo. Depois de chamar atenção com sua abordagem exagerada e inventiva em trabalhos anteriores, Sokolov aqui entrega um espetáculo visual que abraça o absurdo e transforma a violência em coreografia cinematográfica.

Um dos maiores destaques do filme está nas cenas de luta. As sequências são meticulosamente coreografadas e lembram o cuidado de produções como ‘John Wick‘, mas com uma camada extra de caos e improviso. Cada golpe, cada queda e cada explosão de violência parecem ensaiados como uma dança, o que torna os confrontos visualmente empolgantes e extremamente satisfatórios para quem aprecia ação estilizada.
A montagem também merece aplausos. A edição frenética cria um ritmo quase ininterrupto, transformando o filme em uma montanha-russa de adrenalina. Sokolov e a equipe de edição sabem exatamente quando acelerar e quando deixar a câmera respirar, mantendo o espectador imerso em uma narrativa que raramente desacelera. Esse estilo hiperativo combina perfeitamente com a proposta do longa e reforça a identidade autoral do diretor.

No entanto, toda essa estilização vem acompanhada de um nível de violência que pode afastar parte do público. O filme exagera no sangue e no gore, com litros de sangue espirrando em cenas que beiram o grotesco. Embora essa violência seja claramente estilizada e muitas vezes até cômica, há momentos em que o excesso pode causar desconforto e até enjoo em espectadores mais sensíveis. Não é um filme para estômagos fracos — e isso faz parte da sua proposta.
Onde o longa tropeça é no roteiro. Apesar de contar com diálogos inteligentes e por vezes sarcásticos, a trama em si soa excessivamente familiar. A ideia de uma protagonista presa em um ambiente controlado por uma elite bizarra e forçada a sobreviver à noite lembra muito o que já foi explorado em ‘Casamento Sangrento 2‘, o que tira parte do frescor da narrativa. A sensação constante é de déjà-vu, como se estivéssemos assistindo a uma variação mais barulhenta de uma história que o público viu recentemente.

Ainda assim, é impossível negar o empenho e a paixão de Sokolov pelo projeto. Cada frame transmite o prazer de um diretor que claramente ama o cinema de gênero e quer levar seus excessos ao limite. Mesmo quando a história não surpreende, a execução técnica e o estilo visual compensam, transformando o filme em uma experiência visceral e memorável.
No fim das contas, ‘Eles Vão Te Matar‘ pode não reinventar a roda no quesito narrativa, mas prova que, quando dirigido com personalidade e energia, até mesmo uma trama familiar pode se tornar um espetáculo sangrento irresistível para os fãs de terror e ação.

