Crítica | ‘Elio’ resgata as glórias da Pixar em uma tocante e honesta narrativa sci-fi

A Pixar não alcançou um merecido sucesso no cenário do entretenimento por qualquer motivo: desde sua estreia oficial com o irretocável ‘Toy Story’, passando por clássicos instantâneos como ‘Monstros S.A.’ e ‘Ratatouille’, e culminando em ótimas produções recentes como ‘Luca’ e ‘Red: Crescer é uma Fera’, os competentes nomes por trás desses projetos promoveram um encontro multigeracional entre passado e presente, apresentando narrativas instigantes e divertidas através de comentários profundos e muito bem-vindos sobre a própria natureza do ser humano.

É claro que, vez ou outra, o estúdio cometeu certos deslizes ao não conseguir superar as expectativas que fomentou nos espectadores, como visto na franquia ‘Carros’, na inofensiva animação ‘O Bom Dinossauro’ e no esquecível spin-off ‘Lightyear’, todos partindo de premissas interessantes e que não se concretizaram como deveriam. E, em meio a uma espécie de fadiga hollywoodiana e a um apreço por sequências, remakes e reboots, é notável como o escopo animado sofreu com a falta de apoio para histórias originais, mostrando uma inclinação inescapável da indústria por “tirar leite de pedra” em meio a licenciamentos já existentes e dentro de uma óbvia zona de conforto. Porém, Elio veio para mostrar que ainda há muito para se contar: o longa, que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 19 de junho, é uma carta de amor aos fãs de aventura e ficção científica e resgata as glórias da Pixar sem se valer apenas de incursões saudosistas e explorando o que, de fato, nos faz humanos.

A máxima pode ser um tanto quanto estranha, visto que a trama do filme é, como podemos imaginar, uma viagem pelo espaço sideral. O enredo é centrado em Elio (Yonas Kibreab), um jovem garoto que lida com a morte prematura dos pais e passa a morar com a tia, a major Olga (Zoe Saldaña), que trabalha juntamente aos cientistas e pesquisadores da estação espacial local. Sentindo-se deslocado em meio a uma realidade e a pessoas que não o compreendem, Elio desenvolve uma paixão quase doentia pelo que existe além do planeta da Terra, perdendo-se em meio ao desejo de ser abduzido por alienígenas e, com sorte, encontrar o lugar a que sempre pertenceu.

Desenvolvendo um apreço por radioamadores, Elio passa seus dias tentando fazer contato com a vida lá fora. Repreendido por Olga por sua impulsividade, o garoto começa a achar que suas preces não serão atendidas – isto é, até uma gigantesca nave espacial o abduza e o leve para o Comunaverso, uma organização interespecial que reúne as maiores mentes do universo para discussões acaloradas sobre o sentido da vida. Elio, confundido com o embaixador oficial da Terra, navega pelo “cargo” que lhe é dado e percebe que as coisas são mais complicadas do que imaginava – e se vê um perigoso jogo que envolve o implacável Lorde Grigon (Brad Garrett), que ameaça invadir o Comunaverso, e seu adorável e inocente filho Glordon (Remy Edgerly), que se torna não apenas uma inesperada “carta na manga” dos planos de Elio, como um grande amigo do protagonista titular. E, a partir daí, o nosso herói embarca em uma jornada para salvar a todos e, principalmente, a si mesmo, levando-o em uma aventura pelo autodescobrimento e pelo senso de pertencimento.

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O projeto conta com a colaboração tripla de Madeline Sharafian, Adrian Molina e Domee Shi, esta responsável por uma das animações mais honestas e subestimadas desse incrível panteão da sétima arte, ‘Red: Crescer é uma Fera’. E, diferente do que alguns poderiam imaginar, essa junção de forças serve como ponto-chave para compreendermos a exuberante mente de cineastas que têm muito a nos contar, nos convidando a navegar por uma trajetória intergaláctica, vibrante e muito colorida. Nota-se o cuidado estético que as diretoras e o incrível time por trás das câmeras possuem, garantindo uma impactante e proposital contradição entre os segredos e as novidades que se escondem na imensidão do espaço e a constante solidão de Elio, por mais que ele nunca, de fato esteja sozinho.

Julia Cho, Mark Hammer e Mike Jones, assinando o roteiro, apostam fichas em uma remodelação de convencionalismos de gênero e não pensam duas vezes antes de construir personagens-base com os quais estamos acostumados, ainda mais quando pensamos no gênero da animação. Os certeiros diálogos e o equilíbrio fabuloso entre drama, comédia e ação fornecem ritmo e dinamismo a essa breve história, que desenrola-se com fluidez e sem exagerar em melodramas novelescos ou sequências desnecessárias. Não é surpresa, pois, que a produção se estenda por pouco mais de noventa minutos, sabendo exatamente o que quer nos entregar e percebendo que, às vezes, o menos é mais.

Seja com a épica e sinestésica trilha sonora de Rob Simonsen, seja com fotografia abrangente e expansiva de Derek Williams e Jordan Rempel, Elio funciona do começo ao fim por saber que tipo de enredo contar e de que forma fazê-lo, entendendo que explorar tropos e incursões conhecidas do cenário do entretenimento pode funcionar, quando tudo o que busca é a diversão e o entretenimento. Trazendo as glórias da Pixar Studios de volta em um aplaudível espetáculo visual, a animação é a opção ideal para se ver com a família e nos arrebata cena após cena por ter o coração no lugar certo.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.