Em determinado momento, Madonna provavelmente deve ter acordado e pensado que não devia mais nada para ninguém – ainda mais em se tratando de seu extenso legado musical. Dona de uma série de músicas de monumental sucesso crítico e comercial, a artista possuía uma necessidade de se provar continuamente relevante, sendo que nunca deixou de ser. Afinal, ela havia feito história diversas vezes, fosse com o irreverente Like a Prayer, com o ousado Erotica, com o exuberante Ray of Light e com o nostálgico Confessions on a Dance Floor. Três anos depois de ter conquistado o mundo mais uma vez, ela estava pronta para dar um passo diferente em sua carreira, repaginando seu visual para a estética urbana que se apoderava do final dos anos 2000 e se aliando com produtores da nova geração – incluindo Pharrell Williams e Timbaland.

Em abril de 2008, nasceu Hard Candy. Composto por treze faixas originais (e aqui incluo a versão deluxe que recentemente foi disponibilizada nas plataformas de streaming), a performer procurava se aventurar em mais uma amálgama exuberante de diversos gêneros musicais, da mesma forma que já havia feito anos antes. Entretanto, o tiro saiu pela culatra e, com exceção de breves iterações cujo potencial não é explorado como deveria, o resultado final é, por falta de outro adjetivo, apático: do começo ao fim, sentimos apenas centelhas da energia e da originalidade que Madonna nos apresentara tantas vezes, nunca alcançando o que deveria e preferindo se render aos convencionalismos do mainstream em vez de buscar por algo novo.


Mais do que isso, a cantora e compositora parece não ter qualquer noção do que está fazendo: é notável como ela desesperadamente levanta as mãos em busca de um sinal divino que jogue, de qualquer forma, uma produção descabida no mercado – o que funciona, de fato (não é surpresa que o álbum tenha debutado em primeiro lugar em quase quarenta países e tenha dado a ela a turnê feminina mais lucrativa de todos os tempos). Mas, quando pensamos na veia artística e na cautela sonora, nada consegue nos preparar para a derradeira infelicidade da maioria das faixas. Há, de um lado, as manchas deixadas por sintetizadores mal colocados e a excessiva utilização de autotune que não nutre de qualquer significado para versos mal compostos e uma atmosfera nada convidativa; de outro, as incursões para o R&B, para o rap e para a música urbana, partindo da presença idiossincrática da dupla The Neptunes, procuram pincelar um quadro com rebeldia desnecessária.

Hard Candy tem seus momentos, como é o caso de “Candy Shop”, que abre com sensualidade extrema o que poderia ser um dos melhores álbuns de Madonna. Mas o prospecto é logo varrido para debaixo do tapete e, no final das contas, tudo que nos resta é algo sem vida. A música de abertura, entretanto, por mais familiar que soe (vide a famosa progressão de “I’m a Slave 4 U”), é uma fagulha de esperança dentro de um mar aterrador – ainda mais quando é seguida da vibrante e dark “4 Minutes”, cuja rendição ao lado de Justin Timberlake é sólida o suficiente para nos guiar através de uma luta contra o tempo. O problema, que repete-se ao longo do CD, é a falta de protagonismo da lead singer: praticamente entregando os holofotes para seus colaboradores, ela falha em alçar voo e deixa seus fãs sonhando com o que poderia ter seguido um caminho bem diferente.

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É quase impossível acreditar que a principal produção outrora havia ficado com o clássico ‘The Emancipation of MiMi’, uma das maiores bíblias da esfera fonográfica. Aqui, o competente início de tracks como “Give It 2 Me”, embebida no dance-pop, e de “She’s Not Me”, infundido num linear nu-disco, tem seus segmentos atrapalhados pela adição insana de várias camadas desconexas, criando apenas estilhaços. Em “Beat Goes On”, Madonna se junta a Kanye West em uma canção que não consegue se restringir a um gênero, mas também não alcança nenhum outro – por mais que procure voltar para o início dos anos 1980 e fazer breves alusões ao conterrâneo Michael Jackson. Em “Dance 2night”, percebe-se uma preferência pelo recuo: o baixo é responsável por apimentar a clássica narrativa de “garota conhece garoto” na pista de dança e também por fornecer alguns fios de organicidade que não aparecem anterior ou posteriormente.

É fato dizer que nenhuma das faixas alcança a perfeição desejada – e talvez Madonna nem mesmo queira isso. Os equívocos que ela não consegue prever, porém, perfilam secções básicas, como a lírica mal colocada em “Spanish Lesson” e o frenesi pueril de “Incredible”; “Ring My Bell” é tratada com um pouco mais de carinho, mas emerge num contexto inexplicável e sem direção; “Devil Wouldn’t Recognize You” retorna para um onirismo contemporâneo que tornou-se marca registrada de Madonna em inúmeras canções – e algo a ser levado em consideração aqui, em se tratando de um conto nostálgico e atual. Por fim, nota-se que a artista escolhe direcionar seus esforços criativos para os singles promocionais do álbum, como “Miles Away”, uma semi-balada country-dance que peca apenas pela duração do prólogo e do epílogo.


Hard Candy é, de longe, uma das piores produções de Madonna – conseguindo ser menos interessante até que a conturbada construção de American Life. Calcada sobre uma estrutura medíocre que não faz jus ao que a rainha do pop, a obra fica no meio do caminho e é encoberta pelas glórias de um passado não muito distante.

Nota por faixa:

  • Candy Shop – 3,5/5
  • 4 Minutes (feat. Justin Timberlake e Timbaland) – 4/5
  • Give It 2 Me – 3,5/5
  • Heartbeat – 2/5
  • Miles Away – 3,5/5
  • She’s Not Me – 3/5
  • Incredible – 1/5
  • Beat Goes On (feat. Kanye West) – 3,5/5
  • Dance 2Night – 3,5/5
  • Spanish Lesson – 1/5
  • Devil Wouldn’t Recognize You – 3,5/5
  • Voices – 2,5/5
  • Ring My Bell – 3/5
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