A Walt Disney Studios não se consagrou como o império da animação ocidental por qualquer motivo – e, desde a estreia de ‘Branca de Neve e os Sete Anões’, em 1937, quase sempre entregou narrativas perfeitas e envolventes, conversando não apenas com as crianças, mas com qualquer um que tirasse um tempo para conferir inúmeras produções. Só nos últimos anos, tivemos a sequência de ‘Frozen’, que expandiu o universo de Elsa e Anna, a incrível jornada Moana – Um Mar de Aventuras’, que apresentou a primeira princesa polinésia da Casa Mouse, e a impecável ‘Zootopia’, que merecidamente o Oscar de Melhor Animação – isso sem mencionar a divertida história de Raya e o Último Dragão, que resgatou o classicismo da jornada do herói com visuais estupendos.

Agora, está na hora de conhecer a mais nova personagem da família Disney, Mirabel Madrigal (Stephanie Beatriz). A protagonista de Encanto é uma jovem que vive na comunidade montanhesa que empresta o nome ao título do longa-metragem, um refúgio colombiano erguido com os poderes fantásticos de uma vela cuja chama nunca se apaga. O místico objeto, entregue à matriarca Alma (Maria Cecilia Botero), também concedeu a cada membro da família um dom especial – como super-força, super-audição, transmutação e até mesmo a habilidade prever o futuro. Quer dizer, com exceção da própria Mirabel, que desde a primeira sequência da produção posa como a “exilada” da família. Entretanto, a força da magia logo começa a desvanecer e a colocar em xeque as estruturas que reergueram os Madrigal, cabendo à jovem heroína a descobrir o que está acontecendo e fazer o possível para salvar aqueles que ama.

É certo dizer que a estrutura do filme é conhecida por aqueles já acostumados à “fórmula Disney”, por assim dizer. Encanto se alicerça no gênero musical com exuberância plena e invejável, colocando a responsabilidade da trilha sonora nas mãos de Germaine Franco e do multitalentoso Lin-Manuel Miranda – logo de cara imprimindo a identidade sonora que o colocou no topo do mundo com ‘Hamilton’ e Moana. Diferente de tantas músicas que eternizaram o panteão da Casa Mouse, a épica instrumental recebe um tratamento distinto, em que a elegância orquestral é transformada em uma festa de tirar o fôlego, que inclui o uso de cajóns, violões, chocalhos, bumbos, flautas e vários outros (e aqui faço menção especial às impecáveis faixas “Surface Pressure” e “We Don’t Talk About Bruno”, que remam contra a maré em direção a uma originalidade estonteante que incrementa a trama do melhor jeito).



Os nomes responsáveis por essa nova pérola da animação são Byron Howard e Jared Bush – e, se você nunca ouviu falar de tais nomes, talvez se lembre do aplaudido ‘Zootopia’, que ficou sob comando da dupla. Ansiando por uma mais uma estatueta do Oscar, Howard e Bush mergulham de cabeça na cultura colombiana e se aliam a um talentoso time artístico que demonstra apreço e cuidado em cada aspecto visual, desde os vívidos figurinos até a paleta de cores que acompanha o arco dos protagonistas e dos coadjuvantes (bem como referências profusas aos chibchas, quimbayas e taironas, povos indígenas originários do país cuja estética aparece em objetos e relíquias dos Madrigal). Há um naturalismo pungente e emblemático que nos remonta às recentes animações 3D da companhia e que transpassa tanto os aspectos mais claros quanto os mais sutis da obra, em que a própria residência, engolfada em uma divertida personificação, acompanha o humor de Maribel e de sua família e reflete os problemas que lá se escondem.

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É claro que já vimos essas inflexões exploradas ao extremo em outros títulos da Disney, como ‘A Bela e a Fera’. Entretanto, talvez a mimética promovida por Howard e por Bush tenha sido proposital e, de fato, contribuiu para a construção de uma mitologia que cairá imediatamente no gosto dos espectadores pela complexa engrenagem que gestou e pelo explosivo conflito dos personagens. E, tecnicismos à parte, é notável como o elenco cria mágica com uma química que nos fisga desde os primeiros minutos: Beatriz mostra sua crescente versatilidade depois de ter estrelado ‘Brooklyn Nine-Nine’ e ‘Em um Bairro de Nova York’, enquanto as vozes marcantes de John Leguizamo, Diane Guerrero, Wilmar Valderrama e tantos outros fomentam uma mistura de personalidades únicas e que dialogam com os atemporais arquétipos que guiam a heroína.

À medida que podemos prever os eventos do filme – em que a zona de conforto, o “cosmos” em que Mirabel esteve confinada todos esses anos, se transforma em uma espécie de campo de batalha pela proteção da família -, o roteiro aproveita os paradigmas em que se reclina para pincelar temáticas importantes e que, num âmbito evocativo, reconstroem a dura história da Colômbia e as múltiplas guerras civis que sempre acompanharam esse povo latino-americano. Alma perdeu o marido para militares que os expulsaram de seu lar e, deixada sozinha com três crianças recém-nascidas, se reergueu defronte a inúmeros obstáculos, motivo pelo qual sua presença austera desperta receio nos outros membros da família. Incursões sobre pertencimento, abandono e conflitos multigeracionais também despontam ao longo do filme.



Encanto é a melhor animação da Walt Disney Studios em cinco anos. A narrativa pode não ser a das mais originais, mas é a condução, a química dos dubladores e a aplaudível imagética que transforma o que poderia ser mais uma esquecível e descartável aventura em uma luta por aqueles que sempre estarão ao nosso lado e pela compreensão de que cada um de nós é importante da maneira que veio ao mundo.

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