Atenção: spoilers à frente.
Escolhido como representante da França para o Oscar 2027, ‘Minotauro’ já pode ser considerado um dos melhores filmes da última década pela crueza com que explora seus temas. O suspense dramático, que funciona como coprodução ao lado da Letônia e da Alemanha, coloca em voga os impulsos bestiais do ser humano em meio a um caótico cenário bélico que transforma a universalidade de suas explorações em uma incursão bastante peculiar e única que nos leva ao núcleo disfuncional que é marcado tanto pelos horrores e pelos sacrifícios de uma guerra que não os representa quanto pela necessidade de reafirmação de controle que todos buscamos, seja em qualquer tipo de instância.
Comandado pelas firmes mãos de Andrey Zvyagintsev, o longa-metragem nos leva para o cerne de uma família que tem como centro o patriarca Gleb (Dmitriy Mazurov), um executivo de negócios que, à medida que é forçado a dispensar vários funcionários em virtude da convocação compulsória ao conflito bélico entre Rússia e Ucrânia, começa a suspeitar que sua esposa, Galina (Iris Lebedeva), o está traindo, ainda mais considerando que ela está cada vez mais afastada do marido e do filho, agindo como se estivesse escondendo segredos e caminhando em meio a um perigoso labirinto que pode culminar em uma tragédia sem precedentes.

Recriando os passos dados pela esposa, Gleb descobre que Galina está tendo um caso com o charmoso e magnético fotógrafo Anton (Yuriy Zavalnyouk), com quem cruzou caminho e que, de imediato, arrebatou uma mulher que se sentia apenas como um adereço da casa e da própria estrutura familiar. Escapando da brutal e opressora realidade em que vive, Galina acredita que sua “vida dupla” não causará mal a ninguém – até Gleb resolver enfrentar Anton e deixar que seus instintos primitivos falem mais alto, colocando um fim na condenável relação afetiva entre os amantes e tentando trazê-la, nem que à força, de volta a uma normalidade da qual é impossível fugir.
Diferente de incontáveis outros dramas que esquadrinham os segredos e os ressentimentos de núcleos disfuncionais, ‘Minotauro’ não tem medo de se arriscar e promover uma discussão um tanto quanto distinta – utilizando, como já mencionado no primeiro parágrafo, a universalidade como receptáculo para um enredo peculiar e único. Aliando-se a Simon Lyashenko no roteiro, Zvyagintsev se apoia na mitológica figura que empresta seu nome ao título do longa-metragem para explorar os ímpetos bestiais do ser humano, arquitetando uma estrutura realista-pessimista que levanta questões sobre a natureza de cada um dos personagens. Afinal, enquanto cada um deles é pincelado com uma complexidade irrefreável, seus arcos singram pela área cinzenta da moralidade e mergulham numa psique abalada por estruturas sociopolíticas que os influenciam em caráter quase determinista.

Zvyagintsev se baseia no clássico thriller erótico francês ‘A Mulher Infiel’ para construir a história, prestando homenagens claras à cruel e à visceral identidade eternizada pelo diretor Claude Chabrol. Todavia, o cineasta russo não deseja apenas construir um remake, e sim garantir que a linguagem fílmica seja pautada num movimento de compressão e expansão que transforma a pitoresca cidade onde a história é ambientada em personagem vivo e atuante, reiterando a total falta de controle que Gleb tem sobre sua família e sobre os rumos que a guerra leva – eventualmente levando-o a cometer um hediondo crime passional que, de alguma forma, é ocultado por forças maiores e que o impedem de ser investigado (arremessando-o de volta à fragilidade das convenções que sempre defendeu em uma última tentativa de se agarrar a algo palpável).
Nesse quesito, o exímio trabalho do elenco ajuda a reafirmar a beleza técnica e artística do projeto: Mazurov se rende à odiosa e frustrada personalidade de Gleb em toda a sua completude, garantindo que a empatia para com o personagem seja praticamente inexistente (seja como marido negligente, pai ausente ou empresário predatório). Lebedeva, por sua vez, rouba os holofotes em uma derradeira incursão como Galina, puxando elementos de ‘Uma Casa de Bonecas’, de Henrik Ibsen, para mergulhar na truculenta realização de que ela se sente como pessoa e como indivíduo apenas ao lado de Anton, renegando os títulos que lhe foi dado desde quando aceitou se casar e formar uma família com Gleb.

A falsa sensação de estabilidade é validada também pelo caráter isolatório da fotografia de Mikhail Krichman, que promove uma crescente distância entre Gleb e Galina em enquadramentos cada vez mais afastados antes de reuni-los em um ponto de encontro catártico e uma reflexão do significado corporativo do amor e da família – respaldado por uma paleta de cores fria e melancólica que nos guia em uma jornada aparentemente sem prospecto positivo. A cereja do bolo vem com a tétrica trilha sonora de Evgueni e Sacha Galperine, que irrompe em cordas dissonantes e um proposital desconforto sensorial que navega entre a explosão e o silêncio.
‘Minotauro’ encontra sucesso ao emergir como uma densa fábula familiar que é ousada onde precisa ser e que convida o público a refletir sobre o que faz com que nossa necessidade pelo controle e pela firmeza se transforme em um aspecto inalienável, inegociável e potencialmente perigoso.


