Através das lentes de uma mulher branca e que vem de uma situação financeira estável, presa injustamente em um lugar em que não deveria estar, olhamos com outros olhos para o sistema prisional, os processos burocráticos e os sonhos interrompidos nos centros de detenção de imigrantes ilegais. Será que é tão inovador e potente assim? Esta poderia ser a sua descrição banal de alguma temporada de Orange Is the New Black, mas aqui nossa atenção está voltada para outros lugares, outro país, outro continente. É na Austrália que Estado Zerobusca uma nova maneira de falar sobre a situação de refugiados e a batalha por uma nova esperança. Ela nem sempre acerte em cheio no ângulo correto da história — ou, às vezes, não identifica com clareza onde está o real protagonismo da trama — mas traz uma mensagem poderosa sobre a banalidade da tragédia. 

Inspirada na história da australiana Cornelia Rau, a série parte do ponto de vista de Sofie Werner (Yvonne Strahovski), uma comissária de bordo que, de saco cheio da própria vida, pede demissão e acaba sendo atraída por uma espécie de culto de auto-ajuda chamado GOPA, onde rapidamente cai nas graças dos líderes, a carismática Pat (Cate Blanchett) e seu companheiro, Gordon (Dominic West). Quando Sofie imagina ter confiança o bastante para deixar sua vulnerabilidade à solta, descobre motivos mais sombrios por trás dos risos e passos de dança, e é isso que a faz fugir de tudo, inclusive de sua própria identidade, em busca de refúgio. 

 

Assim, Sofie se transforma em Eva Hoffman, uma mochileira alemã não-documentada que vai parar no Centro de Detenção de Baxter. Tudo o que ela quer é ser deportada para a Alemanha, mas precisa aguardar julgamento neste limbo por não poder comprovar a suposta identidade.

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A instabilidade psíquica e emocional de Sofie se apresenta desde o início como a força-motriz desta minissérie de 6 episódios, que em nenhum momento se contenta com uma narrativa linear tradicional e se ancora em flashbacks para comparar o estado emocional da protagonista antes, durante e depois de sua passagem pelo culto. Ao mesmo tempo, Estado Zero ganha tração quando apresenta os demais protagonistas e faz suas histórias se cruzarem em um emaranhado de decisões complexas que assolam cada um deles. Ameer (Fayssal Bazzi) é um pai de família do Afeganistão que se encontra separado da esposa e das filhas após sair em busca de refúgio e um futuro melhor. Cam Sandford (Jai Courtney) é um pai de três crianças que consegue um emprego como guarda em Baxter e logo descobre que vai enfrentar um desafio tentando manter sua essência íntegra enquanto lida com o ciclo de violência e banalidade dos colegas. A burocrata Claire (Asher Keddie) é enviada para lidar com as controvérsias e a imagem negativa da prisão junto à imprensa, e eventualmente também se descobre exausta frente a um sistema desenhado para esconder a sujeira sob o tapete. 

Enquanto essas histórias se entrecruzam e aqueles que deveriam garantir a lei são colocados no holofote em óticas negativas e violentas, Stateless reúne os elementos necessários para uma trama atraente, mas muitas vezes parece tentar dizer tantas coisas ao mesmo tempo que o resultado soa disperso ou exagerado. A ânsia em voltar para a história de Sofie parece se ancorar mais no star-power da excelente Strahovski do que no quanto aquela história tem a oferecer — que não é muito, apesar de não ser nenhum sacrifício ver a atriz exercitando seus talentos de forma tão sutil após três temporadas no arco circular de Serena Joy em ‘The Handmaid’s Tale’

Dessa forma, o maior equívoco da produção está na teimosia em não enxergar que o epicentro emocional está na banalidade da história de Ameer e sua família. Bazzi entrega uma performance muito delicada, que foge de grandes gestos dramáticos para contar nos detalhes o conflito interno e a dor daquele pai tão desesperado. O fato de aquela ser a história de centenas de famílias que fazem a mesma escolha desafiadora com resultados igualmente sofridos faz desta uma narrativa ainda mais pertinente, que poderia ter sido melhor iluminada se a série não estivesse tentando dar um passo maior que a perna. 

Mesmo assim, muitas vezes uma versão mais sofisticada deStateless consegue se destacar, sobretudo quando não coloca os oficiais — vistos sobretudo através de Cam e Claire — como cegos cumpridores da lei sem alma ou instinto moral e ético. O gradual mas certeiro declínio do personagem de Courtney é visto através da relação com a família, e é provavelmente uma das suas melhores atuações — uma que não se ancora no reforço da imagem máscula e permite ao público que se aproxime e se afaste dele ao longo dos episódios de acordo com as decisões contraditórias, mas bem arquitetadas e apresentadas, que ele toma.

Muito dessa sofisticação vem graças à direção colaborativa entre Emma Freeman e Jocelyn Moorhouse, que se alternam no posto a partir dos roteiros assinados por Tony Ayres, Blanchett, Elise McCredie e Belinda Chayko. A composição do cenário faz questão de destacar a solidão de cada um dos confinados, com espaços vazios e repetições, sempre com a sensibilidade de olhar para o feminino através de um sofrimento que jamais é condescendente. Essa é a fortaleza da série: a mensagem é dura, mas o olhar não é para entristecer. 

Paralelamente a tudo isso, o que não funciona muito bem na produção cabe à sua indecisão entre ser a história de Sofie com os demais protagonistas circulando ao redor ou se deseja dar a todas as histórias a mesma quantidade de atenção. Quando tenta a primeira opção, deixa visível que sua exploração do estado psicológico da personagem fica no superficial — Blanchett e West aparecem apenas de forma esporádica, embora deixem sua marca na memória. Quando tenta a segunda, consegue investigar um pouco melhor o quanto os processos afetam o emocional de cada um dos envolvidos, sem medir a crueldade para qualquer um dos lado. Mas deixa faltar no que diz respeito a criar um laço entre eles que dê à audiência motivos para se importar com eles como um todo, e não apenas individualmente.

De qualquer forma, Estado Zero traz à luz um assunto relevante com personagens complexos e bem atuados o bastante para fazer dela uma série com a qual é possível criar empatia, por mais rígida que possa ser nas bordas. O que está no centro da história, e no centro da sociedade globalizada do Século 21 de tantas formas, é o sentimento contra imigrantes. Ao colocar a audiência em um lugar em que ninguém quer estar, ela põe um dedo na ferida. Faltou apertar um pouco mais para causar o impacto que gostaria, mas está ali tentando.

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