Crítica | Ferry – Filme gangster da Netflix promete ação, mas entrega tédio

Filmes de gangster geralmente têm um apelo de público bem grande, afinal, é um submundo do qual a maioria das pessoas não faz parte, mas que desperta muito interesse e curiosidade, especialmente no cinema, que muitas vezes tece uma narrativa mais romantizada e humanizada de um universo que é, na verdade, cruel e violento. Daí então a expectativa do lançamento de ‘Ferry’, nova produção do gênero na plataforma da Netflix.

Um assalto malsucedido à sede do figurão do crime Brink (Huub Stapel) acaba com seu escritório roubado e seu filho, baleado e em coma. Brink fica furioso e pede para que seu braço direito, Ferry Bouman (Frank Lammers), cuide do assunto e se vingue dos responsáveis. Isso faz com que Ferry tenha que voltar à sua cidade natal, Brabant, no interior da Holanda. Lá ele resgata a relação explosiva e problemática com sua irmã, Claudia (Monic Hendrickx). Enquanto caça os culpados pelo crime, Ferry começa a se envolver com a vizinha Daniëlle (Elise Schaap), e essa relação passa a abalar as estruturas morais do gangster.

Trabalhar com as expectativas dos espectadores é sempre muito delicado, mas a real é que ‘Ferry’ dá uma boa desapontada na gente. Prometendo muita ação e bangue-bangue, o longa apresenta um enredo morno, beirando o tédio. Em uma hora e quarenta e sete de duração, mais da metade da produção se desenrola com Ferry buscando os culpados do assalto e conhecendo Daniëlle, e, após exatos uma hora, apenas um dos culpados foi encontrado. Aí entendemos que a proposta do longa não é “tiro, porrada e bomba”, mas sim nos convidar a um passeio pela jornada individual de humanização do brucutu Ferry até se tornar um homem com sentimentos.

Para isso, o roteiro de Nico Moolenaar e Bart Uytdenhouwen obedece a uma organização linear para apresentar os elementos da trama, sem grandes reviravoltas e, em certa medida, acompanhando o semblante de tédio do protagonista. Considerando que a história é baseada em um personagem que existiu de fato na Holanda, cabia ao roteiro colocar um pouco de tempero na coisa toda e oferecer mais entretenimento aos espectadores.

A diretora Cecilia Verheyden optou por construir um trabalho mais seguro, pouco ousado, respeitando a cronologia dos fatos e fechando o arco do enredo com um número limitado de personagens e centrado exclusivamente no protagonista, sem abrir espaço para o desenvolvimento dos secundários. Se por um lado a diretora não quis sair da zona segura, por outro fez escolhas conservadoras, ao buscar ambientar a história no ano de 2006 – quando os fatos ocorreram –, resgatando os aparelhos de celular analógicos, e, em contrapartida, permitiu que construções modernosas da Amsterdã atual aparecessem no longa, abrindo mão da produção de arte e efeitos especiais que pudessem retocar esse fundo.

Gravado durante a pandemia, ‘Ferry’ chega até mesmo a permitir que, em uma cena, “escape” um figurante usando máscara, o que nos faz refletir sobre o que a pressa está causando nas produções artísticas do último ano. Insosso, ‘Ferry’ prometia ação, mas entrega uma trama entediante e desinteressante tal qual seu protagonista.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.