Em um perfil escrito pelo The New Yorker, a lendária Fiona Apple revelou ao público que estava prestes a terminar seu quinto e vindouro álbum – oito anos depois de ter lançado o aclamado e sensível ‘The Idler Wheel…’. Mais do que isso, deixou claro que sua nova obra (que viria, sem qualquer precedentes, transformar-se na masterpiece não apenas de sua carreira, mas do conturbado ano em que vivemos) traria elementos nem um pouco ortodoxos para as treze faixas de ‘Fetch The Bolt Cutters’, buscando uma amadurecida e expressiva libertação diferente de tudo que ouvíramos antes. Desde o título, menção à série britânica The Fall estrelada por Gillian Anderson, até os roucos vocais que imprime em cada elusiva iteração, a obra é mais do que uma mera peça fonográfica e mercadológica, mas sim um ato político que esconde suas verdadeiras intenções por trás de um metafórico e quase masoquista liricismo que nos envolve numa viagem sem volta.

Durante os meses que antecederam o lançamento do CD, Apple deixou bem claro que construiria uma perspectiva bastante manufaturada e pessoal; não é surpresa que tenha trabalhado grande parte em um estúdio caseiro em Venice Beach (o mesmo lugar que inspiraria Lana Del Rey a dar vida às suas idílicas composições), utilizando instrumentos bastante simples e transgredindo as sonoridades do piano, do baixo e da guitarra em rendições espetaculares, extremamente vanguardistas e que misturam elementos de inúmeros gêneros sem ao menos se aproximar de algum deles – algo extremamente difícil de se fazer. A faixa inicial, “I Want You To Love Me”, parece ser tirado de uma das suits de comédias dramáticas indies e que giram em torno de donas de casa, girando em torno de um poderoso piano que mergulha num mundo único e transbordando em aventuresco potencial.

Criando uma extensão inesperada, a performer move-se para a enérgica e teatral “Shameika”, cuja letra traduz exatamente o que ela quer nos explicar: sempre voltando para o art pop e o baroque pop que a colocou nos holofotes ainda em 1996 com Tidal, Fiona escreve um solilóquio de independência demarcado por cenas do cotidiano que são dialogáveis com basicamente qualquer um que já tenha passado pelos anos escolares e descoberto que aquele opressor mundo era um ínfimo do que a vida nos espera. As drásticas notas do piano e as bruscas mudanças de tempo – que, na verdade, estendem-se do começo ao fim – servem como máscara para constatações bastante duras da vida: “eu não tinha medo dos valentões, e isso os tornava piores” é o mote que rege análises quase sociológicas do âmago de relacionamentos e de confiança interpessoal.

Cada canção é um soco no estômago e material para artigos científicos sobre a psique humana – porém, diferente de pedantes construções sonoras com as quais nos deparamos volta e meia, a cantora e compositora faz questão de deixar ácidas críticas mais palatáveis para os ouvintes, como é o caso da fanfarra “Relay”: aqui, as percussões vem em primeiro plano enquanto a música discorre sobre um ciclo sem fim de invejas, ofensas e vinganças, “passando a tocha” para a próxima vítima que será arrastada para dentro desse ardente pântano de sofrimento. Já “Rack of His” explana uma obsessão compulsiva amorosa que não faz vista grossa acerca de nenhum detalhe – e que respalda em uma atuação irretocável que oscila do blues ao jazz com sutileza aplaudível e emocionante.

Apple sabe exatamente quando dar tudo de si ou quando recuar para escopos mais minimalistas: trabalhando ao lado de Sebastian Steinberg (que inclusive é mencionado em uma das composições), David Garza e Amy Aileen Wood, a artista traz camadas instrumentais muito diferentes do que a esfera mainstream nos bombardeia dia após dia. É possível ver referências que remontam ao icônico grupo musical inglês Stomp, que ganhou a fama ao utilizar o corpo e objetos comuns para criar apresentações orquestrais inenarráveis, como em “Heavy Balloon”. A track vai conquistando mais poder à medida que se aproxima dos atos finais, deixando que a percussão da bateria seja transmutado em pratos, sinos, latas e sintetizadores atmosféricos que parecem ter sido jogados em um liquidificador e retirado em uma forma original, bizarra e que funciona por seu conceito bastante dadaísta (e, mesmo assim, cheio de conteúdo).

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O baixo rouba os holofotes com a sensual “Cosmonauts”, que entra em contradição com a faixa de abertura ao perceber, por conta própria, que a ilusão fantástica e fabulesca dos amores ultrarromânticos já não existe e que, agora, “não há tempo para interromper” a explosão de um barril de pólvora extremamente perigoso. “For Her” é inexplicavelmente sensorial, assemelhando-se a uma enfática apresentação a capella movida por múltiplos estratos, lançados em um trava-línguas movido por aliterações e assonâncias – e fundidos com uma ironia on point. “Drumset” prenuncia um finale digno de ovações, movido por uma sinestesia clássica que nos arremessa para os cabarés de jazz dos anos 1920 e 1930 sem perder seu teor contemporâneo e avant-garde – antes de dar lugar a bem-demarcada “On I Go”, cujo título é exatamente o que será explanado nos artísticos versos.

A verdade é que ‘Fetch The Bolt Cutters’ vai muito além de uma simples resenha ou de algo que ouvimos apenas para passar o tempo: o novo álbum de Fiona Apple atravessa quaisquer preceitos engessados que já carregávamos da indústria musical, destroçando-os em mil pedacinhos e reorganizando-os em um romance, um thriller, um drama, cujas páginas são pequenas e suntuosas caixinhas de surpresas. Mais do que isso, este é um dos poucos casos que entrega muito mais do que promete: iniciando com um irreverente estrondo e terminando com um estrondo ainda mais espetacular.

Nota por faixa:

  • I Want You To Love Me – 5/5
  • Shameika – 5/5
  • Fetch The Bolt Cutters – 5/5
  • Under The Table – 5/5
  • Relay – 5/5
  • Rack of His – 5/5
  • Newspaper – 5/5
  • Ladies – 5/5
  • Heavy Balloon – 5/5
  • Cosmonauts – 5/5
  • For Her – 5/5
  • Drumset – 5/5
  • On I Go – 5/5
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