Cuidado: spoilers à frente.
A teledramaturgia brasileira não é considerada, quiçá, a melhor do mundo por qualquer motivo. Desde o surgimento da televisão como veículo artístico, o cenário nacional foi palco para clássicos instantâneos que se encontraram sucesso crítico e comercial ao redor do planeta, eternizando-se no escopo do entretenimento – como foi o caso de obras como ‘Vale Tudo’, ‘Avenida Brasil’ e ‘Cordel Encantado’, apenas para citar algumas. Em 1986, Wilson Aguiar Filho encabeçou a ambiciosa novela ‘Dona Beija’, que fez um estrondo durante sua exibição entre os meses de março e julho, imortalizando uma das personagens mais memoráveis da cultura pop do Brasil.
Agora, quarenta anos mais tarde, somos convidados a revisitar esse universo com o vindouro lançamento do remake ‘Dona Beja’, que chega ao catálogo da HBO Max no próximo dia 2 de fevereiro, com o lançamento dos cinco primeiros capítulos. Estrelado por Grazi Massafera como a personagem titular, a semana de estreia da segunda novela original da gigante do streaming é um deleite performático e narrativo que acerta em cheio com a atmosfera colonial do século XIX à medida que nos apresenta a personagens complexos e recheados de dilemas morais que culminam em reviravoltas e surpresas próprias do gênero. Ainda que dotado de alguns deslizes de ritmo e de estrutura, o resultado é aprazível o suficiente para nos manter intrigados e envolvidos no arco de uma mulher que ousou desafiar o status quo da época para se libertar das próprias amarras.

De certa maneira, todo o escopo da atração nos remonta à icônica minissérie ‘Hilda Furacão’, estrelada por Ana Paula Arósio. Aqui, Massafera dá vida a Ana Jacinta de São José, apelidada carinhosamente como Beja, uma jovem de beleza estonteante e que foi criada pelo avô, José Alves (Roberto Bomtempo). Jurando amor eterno a Antônio (David Junior), que em breve partirá para Londres para cursar Direito, Beja vê sua vida virar de cabeça para baixo quando, após participar de um baile em homenagem ao Ouvidor Motta (Virgílio Castelo), se torna alvo desse ambicioso homem, que decide raptá-la e levá-la para a cidade de Paracatu, obrigando-a a se casar com ele. Porém, ela se recusa a aceitar e faz de tudo para escapar de sua prisão, fomentada pelo assassinato do avô pelas mãos de seu impiedoso carcereiro, fazendo de tudo para voltar aos braços de Antônio.
Como podemos imaginar, seu plano não dá certo: as más línguas que percorreram Araxá, sua cidade natal, afirmaram que ela abandonou o noivado para ficar com um homem mais rico, atraindo comentários maldosos acerca de sua pureza e de seu caráter. Beja, tendo como aliada a dama de companhia Severina (Pedro Fasanaro) e a imponente Madame Constance (Elizabeth Savalla), percebe que a vida que desejava lhe foi arrancada como um último suspiro, resolvendo se vingar da melhor maneira que pode: arrancar todo o dinheiro que puder do Ouvidor antes de se firmar uma das mulheres mais ricas da região, voltar para Araxá e mostrar que ela não é a mesma Beja inocente e ingênua de antes.

O capítulo piloto da obra tem início com o breve retorno da protagonista titular à cidade em que foi criada, singrando entre alguns problemas de ritmo e de roteiro que são ofuscados pelo teor introdutório do enredo. Afinal, temos vários arcos delineados no episódio de estreia, cada qual com importância significativa para os eventos que sucederão – e, com a chegada da iteração seguinte, o time criativo por trás do remake retoma as rédeas e volta aos eixos com um delicioso e instigante tour-de-force recheado de artimanhas, reviravoltas, traições e tudo aquilo de que mais gostamos em uma novela.
Trazendo Daniel Berlinsky e António Barreira no comando da nova versão, ambos partindo de um argumento assinado por Renata Jhin, é notável como a trama é adaptada para um público diferente daquele que assistiu à produção original na década de 1980, atualizando, onde conseguem, temas de discussão necessária mesmo depois de dois séculos em que ‘Dona Beja’ é ambientada. Acompanhando a ambientação da já mencionada ‘Hilda Furacão’ e apostando fichas em um interessante revisionismo crítico aos moldes de ‘Bridgerton’, os múltiplos núcleos se aglomeram em uma mistura de incursões sobre feminismo, escravidão, injúria, empoderamento sexual, hierarquias de gênero, LGBTQfobia e tantos outros – sem se valer de falas superexpositivas e optando por uma poética inebriante que acompanha os protagonistas e coadjuvantes.

Ainda que o tom leve um tempo até ser polido e acertado, o comprometimento de Berlinsky e Barreira é o suficiente para nos engolfar nessa imprescindível jornada – e é claro que nada disso seria possível sem o trabalho impecável de Massafera, que continua a reiterar sua incrível versatilidade artística e coloca Beja numa posição similar a de Larissa (‘Verdades Secretas’) e Paloma (‘Bom Sucesso’). Dominando os holofotes com uma força magistral, a atriz funciona tanto sozinha quanto com seus colegas, singrando com uma química exemplar com o cândido apoio que encontra em Fasanaro, com a ácida leveza cômica que Savalla traz com Madame Constance e com a irrupção shakespeariana que nutre ao lado de Castelo, apenas para citar alguns.
Junior também tem seu momento para brilhar, encontrando sucesso maior quando ao lado de Massafera, mas dividindo as cenas com outros atores de enorme peso – incluindo Indira Nascimento e Bianca Bin como suas irmãs, a invejosa Maria e a sonhadora Angélica, e Bukassa Kabenguele e Deborah Evelyn como o Coronel Tenório Madeira e Cecília Sampaio, seus pais; Erika Januza é mais um nome a agraciar as telinhas ao encarnar Candinha, uma jovem negra que estava prestes a se casar com o odioso Coronel Botelho (Werner Schünemann) antes de ser transformada em uma pária social e uma “mulher dama”, largada à porta do bordel à medida que reflete sobre a condição da mulher negra em uma sociedade díspar e opressora.

Os cinco primeiros capítulos de ‘Dona Beja’ acertam em cheio onde devem e finalizam um sólido bloco de abertura que, apesar dos costumeiros convencionalismos das produções do gênero e dos arcos de introdução, nos envolve pelo poder inegável de um talentoso corpo de performers. Guiado pela presença marcante de Massafera, o remake é pincelado com uma roupagem mais contemporânea e “anacrônica”, por assim dizer, que imediatamente nos deixa curiosos para os próximos episódios.
Lembrando que a novela tem estreia marcada para o dia 2 de fevereiro na HBO Max.


