Falar sobre arte é sempre muito complexo, porque mexe com o inefável. Remontando às origens da interação social humana, a teatralidade, por exemplo, foi usada nas primeiras formas de diálogo e avançou para a poesia conforme as linguagens escritas e orais se desenvolveram. Nesse ponto, a arte deixou de ser algo “apenas” funcional, necessário para a sobrevivência, e se consolidou como algo fundamental para a existência. Ninguém existe verdadeiramente sem arte, ninguém se cura por completo sem a arte.
A arte, em suas diversas formas de manifestação, conecta o ser humano com o outro. Desenvolve empatia, conecta com o Sagrado, permite viver sob a pele de outras pessoas e compreender a vida por outros olhos. Ela nos conecta com os antepassados, exprime emoções que muitas vezes sequer sabíamos ser capazes de sentir. E tudo isso por meio da criatividade e da honestidade que apenas um criador é capaz de ter junto ao seu público.

Sob essa perspectiva do amor máximo à arte, a diretora Chloé Zhao constrói em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet seu filme mais apaixonado e trágico. E não poderia ser diferente, já que assume um papel biográfico do Bardo de Avon, William Shakespeare. Reconhecido mundialmente por suas tragédias, o dramaturgo viveu uma tragédia pessoal traumatizante: a morte de seu filho Hamnet aos 11 anos de idade. Por conta desse trauma, o poeta se perdeu no luto, enquanto procurava preencher sua vida com o trabalho. Só que sua família também sofria e precisava ainda mais dele naquele momento. Nessa derrocada pelo sofrimento, ele tenta encontrar uma forma de acolher sua amada e mostrar a ela que ele também estava perdido na angústia de não conseguir expressar tamanha dor, e ficava frustrado de não conseguir deixar claro que ele compreendia exatamente o que ela sentia, por mais que não conseguisse “pôr para fora” por meio de ações ou palavras.
O filme é uma experiência sensorial que começa, como em toda boa tragédia, com a história de um amor proibido entre dois apaixonados improváveis. No caso, o próprio Shakespeare e Agnes, uma filha da floresta que foi acolhida por um lar bastante conservador. Essa parte do filme é fundamental, já que desenvolve um amor platônico que enche os olhos com muita paixão e sinceridade, dando início a nova vida do casal, que não conta com muitas posses e se sustenta majoritariamente pelo amor que um sente pelo outro, enquanto William tenta emplacar sua carreira como escritor e dramaturgo. Isso implica em diversas viagens a Londres, o que afasta a dupla por meses e meses. Por isso que o drama vai impactando tanto, porque aquela chama ardente vai se apagando com o desenrolar da tragédia, restando apenas essa união de almas.

E como a vida de Shakespeare é cercada de lacunas vazias, o filme faz a adaptação do livro homônimo de Maggie O’Farrell, que imagina como foi a vida do casal com a chegada das filhas, a mudança da rotina de uma mulher que teve de se transformar em mãe, e como o luto tomou conta da família com a partida repentina do jovem Hamnet. Nesse ponto, a atuação visceral de Jessie Buckley como Agnes é assustadora. O filme permeia sempre uma presença sobrenatural acerca da personagem, mas nada tão sobrenatural quanto o trabalho de Jessie. Ela se entrega de corpo e alma para a personagem, que supostamente seria a coadjuvante, mas assume um protagonismo na marra, encantando e sendo a principal manifestação da dor nessa tragédia.
Sério, seu trabalho é de deixar qualquer um boquiaberto, tamanha a verdade dela em cena. É curioso como sua Agnes foi reduzida ao papel de coadjuvante por toda sua vida, estando sempre à sombra de alguém, fosse na casa da família ou na casa dos Shakespeare. Sendo que aqui, por meio da dor, ela se torna protagonista por ser sua única alternativa em meio ao caos que a vida virou com a partida do menino. E não importa a época retratada, essa força feminina de assumir as rédeas em situações adversas, por mais dolorosas e sofridas que sejam, é sempre fascinante. Com o trabalho de Buckley, fica ainda mais surpreendente. É a grande atuação feminina do ano, e será muito injusto se isso não for devidamente reconhecido na temporada de premiações.

Por outro lado, Paul Mescal enfim consegue trabalhar uma atuação digna da expectativa que sua própria carreira criou ao seu redor nos últimos anos. Ele encanta com a inocência de um apaixonado, numa época em que os homens precisavam ser brutos para terem serventia. Sua relação com as famílias é complexa e isso só funciona porque ele consegue passar com maestria essa sensação de estar perdido na vida. Sem rumo, ele se apega aos próprios sentimentos para encontrar a subsistência, mas até mesmo isso passa a atormentá-lo. Em meio aos bloqueios criativos oriundos das dificuldades que enfrenta, ele questiona sua própria existência e serventia, mesmo já sendo um pai de família. E por conta dessa amargura, ele digere seu papel e encontra na dramaturgia uma forma de fazer as pazes com a esposa, com a família, com o filho morto e, por fim, com seu âmago.
A direção de Chloé Zhao é extremamente corajosa, principalmente para o ritmo frenético do cinema e do consumo do audiovisual que tomou os últimos anos deste século. Indo na contramão da agilidade sufocante que se apossou do cinema, ela conduz a trama com um ritmo bem lento, mastigando cada drama, desenvolvendo cada perspectiva dos envolvidos nesta tragédia até chegar ao clímax mais apaixonado pela arte visto em muitos anos no cinema. Ela adapta a peça praticamente inteira apenas no clímax, permitindo que o público do cinema assuma o papel de aldeão presenciando o teatro pela primeira vez. É surpreende, é angustiante, é lindo, é trágico… É libertador. E assim, quando esta tragédia chega ao fim, você se entende como parte da obra e não vê alternativas senão chorar para aliviar a dor e fazer as pazes com traumas que você talvez nem soubesse que tinha guardado aí dentro.

Não havia alternativa melhor para encerrar o Festival do Rio 2025. Foi uma escolha muito acertada, tanto da produção do festival quanto da Universal Pictures, que realizou a primeira sessão desta obra-prima moderna no Brasil em um dos palcos mais imponentes da arte brasileira: o Odeon. Com uma sensibilidade sobrenatural e um amor escaldante pela arte e suas diferentes manifestações, Chloé Zhao se consagra novamente como uma das realizadoras mais brilhantes do cinema atual, criando uma obra única, marcante e espetacular.
Mais do que isso, é um filme urgente. Em tempos de tempo escasso, em que o cinema é tratado estritamente como consumo, Hamnet te obriga a prestigiá-lo. É um longaa feito para ser visto, sentido… Vivido no cinema. E ele constrói o clima perfeito para que o público se desligue do mundo exterior e viva aquela tragédia por pouco mais de duas horas. Mas tenha certeza que não será uma experiência que terminará ao fim da sessão. Hamnet seguirá com o público por muito tempo.

