Ao longo de sua carreira, Guy Ritchie comandou diversas produções que conquistaram popularidade considerável, desde a divertida duologia ‘Sherlock Holmes’, estrelada por Robert Downey Jr., passando pela elogiada ação ‘O Agente da U.N.C.L.E.’ e culminando no bilionário remake em live-action ‘Aladdin’. Mesmo passando por altos e baixos, Ritchie sempre conseguiu encantar o público com histórias instigantes e bastante práticas – e, este ano, está retornando aos thrillers de ação com ‘Na Zona Cinzenta’, que estreou neste último dia 14 de maio nos cinemas nacionais.
A trama nos apresenta a Rachel Wild (Eiza González), uma habilidosa negociadora que oferece seus serviços à magnata Bobby Sheen (Rosamund Pike) após o último responsável por reaver uma fortuna de um bilhão de dólares das mãos de um impiedoso e tirânico oligarca chamado Manny Salazar (Carlos Bardem) ter sido assassinado por seu capanga. Rachel, conhecida no ramo por uma imprescindível inteligência e um talento invejável para lidar com as situações mais caóticas possíveis. Munida com um competente time legal e tecnológico, ela escala um time de agentes de elite liderados por Bronco (Jake Gyllenhaal) e Sid (Henry Cavill) para ajudá-la nessa empreitada, garantindo sua segurança caso alguma coisa dê errado.

Bronco e Sid têm habilidades muito específicas que lhe permitem enxergar os mínimos detalhes mesmo em territórios extremamente intrincados e perigosos – e que os torna essenciais para que o meticuloso plano criado por Rachel para desmoralizar o império de Salazar seja concretizado. Navegando pela zona cinzenta entre a moral e a imoral, a negociadora, ao lado de seus “meninos”, como carinhosamente os apelida, ataca cada elemento da vida de Salazar para garantir que ela tenha sua atenção e a convide para uma reunião de negócios em sua ilha particular. E, à medida que entra na toca do lobo, Bronco, Sid e seus agentes garantem que cada aspecto do local já tenha sido esquadrinhado para garantir a remoção de Rachel caso as coisas saiam do controle.
Ritchie explora território bastante conhecido e aposta em tropos que já delineou em produções anteriores. O problema é que o realizador, também responsável pelo roteiro, leva um tempo para encontrar o ritmo e a identidade do longa-metragem, valendo-se de uma convergência descompensada de vários estilos que, cena a cena, são decantados até voltarem aos trilhos. Seja na narração de Rachel, que deixa de existir no meio do ato de abertura, seja diálogos expositivos demais, o filme demora para engrenar, mas logo deixa que o carisma do elenco ofusque os equívocos cometidos por Ritchie.

González tem uma presença imponente em tela e transforma Rachel em uma magnética personagem que se afasta de seus outros trabalhos no cinema – e que serve como um complementar interessante às breves aparições de Pike como Bobby (com quem inclusive já contracenou em ‘Eu Me Importo’). Enquanto ambas as atrizes têm um peso significativo em tela, o destaque vai para as divertidas e despojadas performances de Gyllenhaal e Cavill: Bronco e Sid têm personalidades muito distintas, mas que partem de um mesmo ponto e se desenrolam em trocas afiadas, trazendo um pouco de leveza e de ironia para o irruptivo universo criado por Ritchie – e que não seria possível sem a sólida química que os astros mantêm entre si e com González.
Ritchie mergulha no frenesi cênico desde os primeiros minutos, recusando-se a deixar o público sequer piscar. Por vezes, a história torna-se densa demais para ser acompanhada sem alguns escorregos; todavia, se o realizador peca no roteiro, garante que nossa atenção seja fisgada novamente com clássicas montagens de treinamento intensivo, sequências de fuga em alta velocidade e um jogo de forças opostas que nos é nostálgica e convidativa. Talvez o maior deslize cometido seja a falta de um conflito real que dê mais sustância para esse complexo cosmos, sendo deixado de lado para que uma tardia reviravolta encerre a narrativa.

‘Na Zona Cinzenta’ pode ter os seus problemas, mas, eventualmente, funciona como uma aprazível produção que se vale de momentos saudosistas e familiares para entregar o que se espera de um filme de Guy Ritchie. Mais do que isso, o diretor garante que os personagens não sejam descartáveis e que cada escolha do elenco tenha sido feita a dedo para nos fazer sair da sala do cinema satisfeitos.




