Crítica | Histórias Assustadoras para Contar no Escuro – O Goosebumps de Guillermo del Toro

Crítica | Histórias Assustadoras para Contar no Escuro – O Goosebumps de Guillermo del Toro

Nota:


A Cartilha do Terror

O cineasta mexicano Guillermo del Toro é um aficionado por histórias de terror. Isso fica claro para quem conhece a filmografia do sujeito, sempre dando ênfase a criaturas monstruosas, mas principalmente ao seu entrelace com nosso mundo e às questões que cercam as épocas retratadas. Seu terror de criaturas e efeitos práticos estão sempre conectados com fatores sociais – alguns tão assustadores quanto a ficção, sejam eles a guerra civil espanhola, o Falangismo ou a Guerra Fria.

Justamente movido novamente por esta paixão, o vencedor do Oscar por A Forma da Água (2017) resolveu comprar e bancar a ideia criada pelo escritor falecido Alvin Schwartz neste Histórias Assustadoras para Contar no Escuro. Uma coletânea de contos de terror cujo produto final soa como uma versão mais intensa do seriado infantil Goosebumps – adaptado duas vezes ao cinema.

Guillermo del Toro produz e assina o roteiro da obra, deixando a direção para o norueguês André Ovredal (do eficiente A Autópsia). Na trama, jovens de uma pequena cidade americana vivem seu dia a dia tipicamente Stranger Things, com direito a todos os itens desta cartilha, como: fugir de valentões, problemas com irmãs mais velhas, crush em meninas, o novo rapaz no pedaço, e por aí vai. A diferença é que a trama desta vez se passa nos anos 1960 e não na muito explorada década de 1980.

A trama começa a se desenrolar de verdade quando a turminha decide desbravar uma mansão tida como assombrada, na noite de Halloween. No local, eles descobrem um livro e o levam para casa. Diz a lenda que estas anotações eram feitas por uma jovem, filha da família, que se tornou amaldiçoada. O livro cria suas próprias histórias escritas em sangue nas páginas. E em breve, todo o grupinho estará participando de sua própria trama assustadora.

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Assim temos um espantalho que ganha vida, um homem torto que se despedaça (parte da cultura mexicana), uma criatura bizarra que se desloca pelos corredores de um manicômio, uma espinha que estoura com aranhas, um morto sem dedo, além, é claro, da assombração principal, a dona do livro. Histórias Assustadoras perpassa todos os itens muito esperados para um filme deste gênero, e o faz de forma bem eficiente. De casas assustadoras até a noite tão propícia do dia das bruxas, a atmosfera gélida se mostra o epicentro para o tema.

O elenco em sua maioria de novatos não faz feio e consegue nossa simpatia. No entanto, Histórias Assustadoras caminha na tênue linha do genérico, não apresentando muitas novidades além do que esperamos de uma obra como esta. A predileção de del Toro por criaturas fica bem especificada na tela e aumenta o hype para os puristas por efeitos práticos. A simplicidade das tramas lineares não reservam surpresas ou reviravoltas na adaptação, entregando o básico, mesmo sem desapontar.

Como diferencial sobram as entrelinhas da mensagem anti-guerra, com protestos ao serviço militar no Vietnã, e o subtexto político que traz a candidatura do presidente Nixon em cada TV ligada. Junte a isso questões sociais do racismo contra imigrantes, personificado pelo policial Turner (Gil Bellows) em relação ao jovem Ramón Morales (Michael Garza) – o melhor personagem. Mesmo que levemente, tais observações tiram Histórias Assustadoras do lugar comum e caso tivessem mais ênfase, elevariam a obra. Quem sabe na continuação, já que o filme deixa uma porta escancarada para isso.



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