Crítica | Histórias Paralelas — Entre voyeurismo e imaginação, Farhadi cria seu filme mais metalinguístico (Cannes 2026)

CríticasCrítica | Histórias Paralelas — Entre voyeurismo e imaginação, Farhadi cria seu filme mais metalinguístico (Cannes 2026)

Asghar Farhadi tem uma habilidade rara de transformar dilemas morais complexos em experiências profundamente cotidianas. Seus filmes nunca dependem do extraordinário; ao contrário, encontram potência justamente no banal, nos pequenos gestos e nas relações que poderiam acontecer com qualquer pessoa. Em Histórias Paralelas (Parallel Tales), o diretor talvez realize sua obra mais metalinguística até agora, refletindo sobre o próprio ato de narrar e sobre o poder que as histórias possuem de moldar a percepção da realidade.

Desde A Separação (2010), Farhadi já demonstrava interesse em personagens que manipulam — conscientemente ou não — a visão de mundo daqueles ao redor. Aqui, ele leva essa ideia a outro nível. Ambientado no 10º distrito de Paris, o filme acompanha Sylvie, uma escritora reclusa vivida por Isabelle Huppert, que passa os dias observando a vida alheia da janela de seu apartamento decadente. Com um cigarro sempre nas mãos e uma luneta apontada para o prédio vizinho, ela constrói narrativas sobre as pessoas que observa.

Seu foco principal é Nita, personagem de Virginie Efira. A escritora descreve seus hábitos, seus gestos e seus olhares com tamanha precisão que o espectador imediatamente acredita naquela construção. Aos poucos, porém, percebemos que aquela imagem talvez diga mais sobre quem observa do que sobre quem é observada. Sylvie vive consumida pelas histórias que inventa. Ela não experimenta a vida diretamente; prefere reinterpretá-la à distância, filtrando tudo através da imaginação.

A referência a Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, é inevitável, mas Farhadi não utiliza o voyeurismo apenas como ferramenta de suspense. O olhar, aqui, funciona também como mecanismo de criação e distorção. A escritora busca desesperadamente matéria-prima para seus textos, transformando pessoas comuns em personagens.

Paralelamente, o filme acompanha Adam, vivido por Adam Bessa, um jovem de origem argelina que acaba de sair da prisão e vive em um abrigo temporário. Em uma sequência simples e brilhante no metrô, ele observa uma garota roubando a carteira de uma passageira. Após recuperar o objeto e devolvê-lo à dona, interpretada por India Hair, Adam é parado pela polícia apenas por sua aparência e condição social. Esse pequeno ato de heroísmo acaba aproximando-o de Sylvie, já que a mulher ajudada é sobrinha da escritora e lhe oferece trabalho organizando os papéis espalhados pelo apartamento.

Com a possível publicação do livro, Sylvie promete deixar a casa para a sobrinha, grávida por inseminação artificial, e depende financeiramente da venda do imóvel. O melodrama criado a partir da vida dos vizinhos, no entanto, não agrada à editora, interpretada com charme e ironia por Catherine Deneuve, que critica a superficialidade da trama de traição.

Revoltada com o feedback, Sylvie joga os manuscritos no lixo. É nesse momento, porém, que o filme encontra sua estrutura mais fascinante. Adam se apropria daqueles textos com o desejo de tornar-se também “um mestre de universos”. Ao ler as páginas descartadas, ele passa a reinterpretar a própria vida. A ficção deixa de existir apenas no papel e começa lentamente a contaminar o real, aproximando-o de Nita, a mulher que inspirou a personagem observada por Sylvie.

O manuscrito então circula entre os envolvidos: Nita lê o texto, seu companheiro também, assim como o irmão dele. A partir daí, novas interpretações surgem. Olhares mudam. Suspeitas aparecem. Limites são ultrapassados.

As narrativas paralelas começam, enfim, a se cruzar. Descobrimos que o relacionamento imaginado pela escritora escondia, na verdade, uma pacata agência de mixagem de som administrada pelos irmãos Pierre, vivido por Vincent Cassel, e Christopher, interpretado por Pierre Niney, ao lado da companheira de um deles. Contudo, ao receberem o manuscrito, seus comportamentos passam a ser contaminados pela ficção, como se a narrativa inventada reorganizasse silenciosamente a dinâmica entre aquelas pessoas.

O que antes parecia apenas uma crônica íntima se aproxima gradualmente do suspense psicológico. As ambiguidades morais tão características do cinema de Farhadi aparecem aqui de maneira mais difusa. Em A Separação, O Apartamento ou mesmo Um Herói, os conflitos eram concretos, construídos a partir de escolhas éticas claramente delimitadas. Em Histórias Paralelas, porém, os personagens parecem se entregar aos devaneios produzidos pela própria narrativa, culminando em uma escolha absurda de Pierre entre o irmão e a companheira.

Farhadi constrói, assim, um filme sobre a capacidade dos discursos de manipular a verdade. Uma história inventada pode não ser real — mas basta ser acreditada para produzir consequências concretas. O cinema, a literatura e até os pequenos relatos cotidianos possuem esse poder inquietante de transformar percepções em fatos emocionais.

O mais impressionante é como tudo isso acontece sem grandes reviravoltas. O interesse do diretor está nas pequenas mudanças de comportamento, nos gestos quase imperceptíveis e na maneira como as pessoas passam a agir depois que uma narrativa é plantada em suas cabeças. Da mesma forma que Sylvie dilacera o tecido social ao transformar os vizinhos em ficção, Adam também se apropria daquela obra com o desejo de manipular o próprio destino, depois de ter sido constantemente reduzido e manipulado pela sociedade.

Histórias Paralelas fala sobre aquilo que enxergamos quando observamos alguém — e sobre tudo aquilo que inventamos nesse processo. Entre realidade, percepção e imaginação, Farhadi filma personagens devastados por versões possíveis de si mesmos: pessoas comuns consumidas por histórias que talvez nunca tenham acontecido, mas que, uma vez contadas, já não podem mais ser ignoradas.

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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