Crítica | Inferninho – O elogiado filme cearense chega aos cinemas

O cinema nacional segue, mesmo contando com cada vez menos recursos, desenvolvendo trabalhos de muita qualidade estética, conceitual e, por que não, política. Falando sobre dignidade em um contexto marginal, o filme Inferninho se apropria de uma estética que remete às películas dos anos 1970/80, com uma pegada bagaceira muito bem aproveitada.

O longa-metragem conta uma história de paixão avassaladora. Deusimar (Yuri Yamamoto) é uma transexual dona de um pequeno estabelecimento frequentado pelas figuras mais bizarras do rolê. Não fica claro se o bar é propriamente o que popularmente se chama de “inferninho”, mas é apresentado como o que conhecemos como “bar pé sujo”. O lugar é uma herança familiar que ela gerencia num misto de cuidado e tristeza, por ser seu único lugar no mundo, pelo qual é responsável, mas também do qual se sente refém, presa. Ela e seus funcionários levam uma rotina medíocre que mistura a conformação com um futuro vazio vislumbrado por Deusimar e o sonho de grandeza da cantora que estrela as noites, Luziane (Samyra De Lavor). Com a chegada de um marinheiro ao bar, a vida de Deusimar e de todos se transforma. Jarbas (Demick Lopes) é um tipo conquistador e aproveitador que cativa a proprietária. Passando então a fazer parte da rotina desse lugar hora caótico, hora entediante.

O romance entre Deusimar e Jarbas é retratado sem um excesso de romanização. Dando norte à narrativa e sendo responsável pelos motivos que definem as decisões da protagonista, o que se pode falar sobre a representação desse casal é que foi feito de forma corajosa (para os tempos atuais), porém, sem exageros. Sem a necessidade de chocar ou de esconder. Simplesmente apresentados como um casal da vida real dentro e fora de seus momentos de intimidade.

O filme opta por uma apresentação crua. Não apresenta requintes em termos de cenários, não possui trilha sonora, e mesmo as canções cantadas por Luziane não parecem ser editadas com auto-tune. O filme se passa quase inteiramente em dois cenários (o bar e o quarto de Deusimar), dos quais a protagonista não arreda os pés. Se essas escolhas foram em função do orçamento não se pode saber, mas o fato é que isso deu ao filme um significado psicológico e quase filosófico. E tudo que se optou por não florear trouxe um signo de vida real, com a busca por um glamour que não existe, que é distante para quem está a margem. Cru. Com uma estética bagaceira, que se mostra como proposta logo de cara, construiu o espaço para opções de efeitos especiais ruins, mas que fazem todo sentido, sendo o caminho lógico para a construção do longa-metragem.

Ao mesmo tempo que aproxima de uma experiência real, consegue passear por um universo lúdico e absurdo. Essas pinceladas aparecem nos frequentadores do bar e em situações repentinas que são tratadas com uma naturalidade que não é usual no dia-a-dia. O aspecto mais emblemático desse passeio pelo absurdo remete, em algum grau, à alegoria da caverna de Platão, quando um indivíduo complexo consegue ver além de sombras projetadas e experimenta o mundo real. Traz assim a relação entre mundo real e a razão, e a diferença entre o senso comum e o crítico… aspectos tão presentes nas relações de nossos dias e que demandam um esforço social no trato de questões como as abordadas em Inferninho. Fato é que a direção de Guto Parente e o roteiro do diretor junto a Pedro Diógenes e Rafael Martins, aliado ao bom desempenho do elenco conseguiram trazer reflexões importantes à tona (pelo menos por aqui).

A escolha do protagonista é uma questão à parte que deve ser discutida. O bom trabalho de Yuri Yamamoto é incontestável, o ator que é também diretor teatral e fundador do grupo Bagaceira de Teatro, é consistente em sua atuação. Mas traz para a discussão o papel do cinema como difusor da diversidade, especialmente quando se trata de filmes como Inferninho. Yuri, apesar de excelente no que faz, é um ator cis. Mais uma vez a cena cinematográfica nacional se vê perdendo a oportunidade de trazer aos holofotes a representatividade trans.

O filme cearense foi exibido no festival do Rio e também no Festival Cinematográfico Internacional Del Uruguay e no Festival de Roterdã, chamando a atenção onde foi exibido. Chega nesta segunda quinzena de maio ao circuito regular de exibição, e é uma pedida para quem gosta de apreciar o cinema nacional.

Notícias

‘Barbie 2’ vai acontecer? Produtora da Mattel Studios responde!

Durante sua passagem pelo Toronto Film Festival, Robbie Brenner,...

David Corenswet vive jogador de futebol americano AZARÃO no trailer de ‘Mr. Irrelevant’

A Paramount Pictures divulgou o trailer oficial de 'Mr. Irrelevant', drama...

10 DICAS DE SÉRIES para transformar a noite de casal em um programão

Ter sempre anotado ótimas dicas de séries para assistir...

‘Tudo em Família’ ganhará SEQUÊNCIA com Claire Danes e Rachel McAdams

A Searchlight Pictures anunciou recentemente que a clássica comédia dramática...

Emmy Awards 2026 acontece AMANHÃ; relembre a lista de indicados à premiação!

Nesta próxima segunda-feira (14), serão revelados os vencedores da 78ª edição...