Olivia Rodrigo se tornou um dos grandes emblemas da nova geração da música por uma série de razões: além de ter conquistado uma das maiores estreias de todos os tempos com o aclamado ‘SOUR’, que lhe rendeu nada menos que três estatuetas do Grammy, Rodrigo transformou sua vivência como objeto de estudo de canções que encontraram sucesso crítico e comercial ao redor do mundo, oferecendo uma visão diferenciada da que estávamos a ver no cenário fonográfico – e que encontrou espaço no pop-punk e no pop-rock com ‘GUTS’, além das inflexões do alt-rock em ‘you seem pretty sad for a girl so in love’, seu mais recente álbum de estúdio.
Porém, a cantora e compositora não apenas utilizou seu merecido status no escopo do entretenimento para narrar sobre suas angústias sobre o amor e sobre a própria imagem, como aproveitou da plataforma conquistada para apoiar causas sociais. E esse é o caso do Daisy Chain Fields, festival de música voltado para a caridade cujos lucros são voltados para a defesa de mulheres e garotas – algo que, nos dias de hoje, é de extrema importância. Sendo responsável pela criação do evento e escalando nomes como Rachel Chinouriri, KATSEYE, Chappell Roan e Doechii, Rodrigo emprestará seu talento para o último dia – e já nos presenteou com uma música inédita que havia sido disponibilizada apenas em formato analógico e que, agora, chega a todas as plataformas de streaming: “serena joy”.
O título da faixa faz referência direta à personagem homônima de ‘The Handmaid’s Tale’, clássico romance distópico assinado por Margaret Atwood que discorre sobre um mundo conservador e totalitário em que os Estados Unidos se transformaram em Gilead, uma república teocrática com total controle sobre o corpo das mulheres. Aquelas que ainda são férteis são sequestradas pelo Estado para servir aos governantes dos distritos, forçadas a trabalharem como aias e a engravidarem para servir à contínua linhagem de seus algozes. E, nesse desesperador cenário, Serena Joy emerge como uma das personagens mais complexas: interpretada por Yvonne Strahovski na adaptação seriada, ela, a princípio, sagrou-se uma das principais apoiadoras de Gilead até perceber, quando já era tarde demais, que seu próprio futuro estava em xeque e que, no final das contas, ela estava no mesmo barco que as aias.
Através de breves três minutos, a inédita canção, assinada por Rodrigo e por seu colaborador de longa data, Dan Nigro, carrega uma pungente e direta crítica às constantes investidas daqueles que estão no poder sobre o corpo das mulheres, tecendo um prospecto derradeiro e que, dia após dia, caminha para se tornar realidade – ainda mais com a ascensão da extrema-direita nos EUA com o governo de Donald Trump e de seus aliados. Mergulhando nas pulsões do alt-rock e pincelando a estrutura musical com referências ao dance-rock da banda Yeah Yeah Yeahs (em especial à clássica “Heads Will Roll”), Olivia nos convida a um denso e intrincado enredo que foca na obediência cega – e de que forma figuras políticas criam discursos problemáticas que minam os direitos das minorias sociais, principalmente das mulheres, em prol de uma agenda retrógrada e preocupante.
A faixa é permeada por uma ironia incessante que se traduz em alguns dos melhores versos que a performer já nos entregou. “é tudo pela causa, pelo bem de todos nós” inicia a frenética jornada movida a guitarras e a bateria a que Rodrigo nos convida, singrando pela falsa sensação de liberdade e de controle que irrompe com frases como “cante junto, cante junto, o que eles falam para você fazer” e “agora vá atazanar seus vizinhos enquanto fazemos o que queremos”, colocando os alvos de tais políticas conservadoras como bodes expiatórios – e que, como bem sabemos, é um acontecimento cíclico em toda a história da humanidade. “Tudo está bem”, o verso que resume toda a canção e que encerra essa breve narrativa, é o pináculo de uma mandatória obediência que, muitas vezes, não nos é percebida – e que precisa ser enfrentada mais do que nunca.
Lembrando que “serena joy” já está disponível nas plataformas de streaming.

