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Crítica | Invencível – A História Real de um Menino Autista e a Incrível Forma como Ele Enxerga o Mundo


Nos últimos anos a sociedade civil tem conversado mais abertamente sobre os múltiplos desafios que uma pessoa no espectro autista enfrenta. Também nos últimos anos, especialmente aqui no Brasil, tem crescido o número de pessoas diagnosticadas com algum tipo de autismo. Isso demonstra a urgência de entendermos as demandas específicas das pessoas que vivem no espectro para, assim, vivermos melhor comunitariamente no caminho da inclusão. Para tal, o cinema tem sido fundamental ferramenta para estimular a conversa e o respeito para com esses indivíduos. Só este ano, já tivemos, em janeiro, o longa brasileiro ‘MMA – Meu Melhor Amigo’, que aborda este tema, e agora, quatro meses depois, chega aos cinemas o filme de dramaInvencível’.

Scott (Zachary Levi, de ‘Shazam!’) se apaixona perdidamente por Teresa (Meghann Fahy, de ‘Drop: Ameaça Anônima’) e, no que os dois se envolvem, ela acaba engravidando. Meio que sem saber o que fazer, os dois vão morar juntos, e Teresa confessa um segredo a Scott: desde que nascera ela possui uma doença nos ossos, que os torna super frágeis e, por isso, se quebram com muita facilidade. Com medo do primeiro filho nascer com esse problema genético, os dois se surpreendem quando descobrem que Austin (Kellen Martelli) não só nasce com esta doença, mas também, aos poucos, começa a dar sinais ser do espectro autista. Sem saber como lidar, Scott cada vez mais recorre às bebidas e ao seu amigo imaginário, Joe (Drew Powell) para seguir com seu dia a dia.



Baseado em eventos reais ocorridos com a família de Scott LeRette, e que também já virou livro, dadas as devidas diferenciações entre ficção e realidade, ‘Invencível’ é uma produção bem redondinha, com momentos de emoção, justificativas, pequenas tragédias, volta por cima, perdão, recuperação, enfim, de tudo um pouco para deixar no espectador aquele sabor de aprendizado, tão comum em filmes da ‘Sessão da Tarde’.

Talvez até por ser tão redondinho demais, acaba deixando também uma sensação de que tudo se explica, especialmente com relação ao pai, Scott. Mesmo narrada pelo filho, Austin (o que cansa um pouco), a história gira em torno desse pai se descobrindo e se entendendo pai e aprendendo a lidar não só com um filho, mas com um filho autista. Aí entram questões estranhas no comportamento desse homem adulto: interpretado por um ator de quarenta e quatro anos, o personagem se comporta como um jovem adolescente, que corre para a casa dos pais e toma esporro da mãe por ter engravidado a namorada…aos quarenta anos?! Ao longo do filme o personagem tem suas ações sendo justificadas por todo tipo de elemento, e a esposa, que é a pessoa fragilizada pela doença, mal sai de casa depois do casamento. Considerando que o filme está sendo lançado na semana do Dia das Mães, tudo isso fica muito conflitante.

O ponto alto do filme de Jon Gunn é realmente o jovem Jacob Laval, que faz o Austin de treze anos. Carismático e desenvolto, ele conquista com a segurança e a personalidade que imprime em todas as suas cenas, que se tornam suaves e interessantes por conta de sua atuação. É um menino para ficar de olho nos próximos trabalhos.

Sensível e otimista, ainda que com ressalvas ‘Invencível’ cumpre o papel de dialogar sobre o espectro autista com o público cinéfilo.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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