Crítica | Jack Ryan – Segunda temporada troca investigação por ação

Crítica | Jack Ryan – Segunda temporada troca investigação por ação

Nota:


Lançada em agosto de 2018, Jack Ryan surpreendeu ao oferecer um bom misto entre série investigativa e de ação, além de contar com a ótima presença de um carismático John Krasinski. A produção era meio que um misto entre Homeland e 24 Horas, e contava com uma premissa envolvente e de acordo com o panorama geopolítico em que os Estados Unidos estão envolvidos atualmente. 

Embora ainda conte com alguns bons momentos, a segunda temporada da série deixa um pouco o lado investigativo de escanteio. O foco é praticamente todo na ação. Com isso, o diferencial do primeiro ano foi se esgotando e, a cada novo episódio, a série foi se aproximando de um grande filme de Michael Bay, não por acaso um dos produtores da obra. Se na primeira temporada tínhamos um Jack focado e determinado em obter todas as informações envolvendo as possíveis ameaças terroristas, aqui temos o mesmo personagem chegando a conclusões apressadas após se deparar com algumas fotos isoladas. Em apenas um momento, nos oito episódios, vemos o analista estudando a situação, quase como se a série inserisse a sequência apenas para mostrar que ele ainda é aquela mesma pessoa. Mas a verdade é que o novo Jack Ryan é apressado, afobado e instável. Resumidamente, bem menos confiável daquele sujeito que conhecemos antes. O que acaba segurando o personagem é, mais uma vez, a boa presença de Krasinski.

A nova temporada de Jack Ryan traz o personagem investigando a possível compras de armas da Rússia por parte da Venezuela. Ao chegar no país da América do Sul, Ryan se depara com uma realidade preocupante, em que o autoritário presidente Nicolas Reyes (Jordi Molla) tenta impedir a ascensão da popular Gloria Bonalde (Cristina Umaña), que é uma verdadeira ameaça nas próximas eleições. Na Venezuela, Ryan acaba reencontrando James Greer (Wendell Pierce), que deixa seu posto em Moscou para seguir pistas que apontavam para o país.

Por mais que seja interessante ver uma produção norte-americana do gênero seguindo um caminho diferente, não apresentando a mesma ameaça de sempre no Oriente Médio, há de se observar que a série escorrega bastante na abordagem da Venezuela. Talvez para evitar polêmicas, a produção deixa de apontar o posicionamento político de Reyes, mas dá a entender que ele é um governante de direita ao colocar seus principais adversários no campo da esquerda. Inclusive, Bonalde cita Simón Bolívar em um de seus discursos. Assim, a série “faz O Mecanismo” à inversa e acaba sendo um pouco desonesta com o espectador. É possível argumentar que Reyes é um personagem fictício e que a série poderia inseri-lo em qualquer campo ideológico. No entanto, como a produção tem buscado um tom realista e sempre seguindo o cenário geopolítico mundial soa errado não entrar mais a fundo na questão política na Venezuela, ainda mais que o país é figura central na série na atual temporada.

A abordagem patriótica por parte dos soldados, agentes e políticos norte-americanos também incomoda. São todos paladinos da justiça, quase sem falhas, e dispostos a fazer o correto e consertar os problemas do mundo. O único americano que toma uma atitude errada na série acaba desmascarado pelos próprios compatriotas, que não poderiam aceitar tal atitude. Diante disso, personagens de outras nacionalidades como a espiã Harry Baumann (Noomi Rapace), o político venezuelano Miguel Ubari (Francisco Denis) e o mercenário Max Schenkel (Tom Wlaschiha) acabam sendo bem mais interessante. O elenco conta ainda com a presença de Michael Kelly, em um papel diferente de House of Cards, mas tão eficiente quando.

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Dentre as novidades no elenco, Noomi Rapace demonstra mais uma vez talento para as cenas de ação. A personagem, no entanto, parece mal tratada pelo roteiro, uma vez que todas as suas atitudes envolvem um homem. Além disso, a tentativa de criar uma relação maior com Ryan torna tudo ainda mais artificial. Interesse amoroso na primeira temporada, Abbie Cornish não retorna para os novos episódios. 

Ainda que mantenha o clima envolvente e conte com boas cenas de ação, a verdade é que Jack Ryan entregou um segundo ano ordinário. Os criadores e roteiristas Carlton Cuse e Graham Roland claramente optaram por mudar o perfil da produção e acabaram podando a série de toda sua originalidade e sentido de urgência. O espectador pode até se divertir, mas dificilmente irá surtar com o que vê na tela.

O diferencial de Jack sempre foi que ele era mais do que um brutamontes que partia para ação todo momento que podia. Era alguém que pensava meticulosamente todas as alternativas e seguia seu plano. Infelizmente, esse personagem não existe mais. Com um protagonista prejudicado, a série poderia ser ajudada pela presença de um grande vilão. Mas este também não é o caso. Nicolas Reyes é quase sempre instável e desinteressante. 

A série já está renovada para a terceira temporada, que terá uma troca de showrunners. Cuse e Roland serão substituídos por Paul Scheuring, criador de Prison Break. Curiosamente, Prison Break foi outra série que trocou o desenvolvimento pela ação insana com o passar do tempo. Vamos torcer para que Jack Ryan não continue neste caminho.



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