A passagem do icônico John Malkovich pelos teatros brasileiros começou de forma intensa na tarde deste domingo (29), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. No palco mais nobre da Cidade Maravilhosa, o ator americano encantou uma plateia lotada de curiosos para ver a lenda das telas tomar o palco com sua interpretação de The Infamous Ramirez Hoffman (“O Infame Ramirez Hoffman”, em tradução literal), obra nascida do romance A Literatura Nazista nas Américas (1996), do escritor chileno Roberto Bolaño.
O número artístico é um capítulo do livro de Bolaño, que descreve a ascensão e morte de Carlos Ramirez Hoffman, um personagem fictício que causou uma série de polêmicas em meio à ditadura chilena, atuando como membro da Força Aérea Chilena, onde utilizava a fumaça de seus aviões para fazer “poesia” nos céus. Diante do certeza da impunidade militar, Hoffman desafiava os limites do aceitável para expressar sua arte, mesmo que isso significasse abusar e matar pessoas para fazer exposições.

A princípio, a obra pode parece estranha para quem espera um formato mais “padrão” de peça teatral. Malkovich sobe ao palco acompanhado da pianista russa Anastasya Terenkova, do violinista ucraniano Andrej Bielow e do bandoneonista argentino Fabrizio Colombo. O trio toca canções arrojadas que transitam do erudito ao popular, apostando em obras de Astor Piazzolla, Leonid Desyatnikov, Vivaldi, Alfred Schnittke, Johann Paul von Westhoff, Max Richter, Fazil Say, Lera Auerbach, Alberto Iglesias, Giovanni Sollima e do The Doors.
As canções criam o clima da história, que é narrada por John Malkovich. De forma simples e intensa, o ator americano sobe ao palco com seu figurino tradicional, acompanhado de um microfone e um MacBook, onde lê as passagens da história de Hoffman. Em certo ponto, o trabalho de John nesta obra remonta às históricas apresentações de Steve Jobs, que paravam o mundo da tecnologia para revelar as novidades e inovações que a Apple traria para o mercado nos anos 2000. No entanto, o trabalho de Malkovich é muito mais intenso. Ele não está anunciando um produto, ele está narrando uma história face a face com seu público.

Sem apoio de cenário e contando somente com a ambientação sonora do trio, o ator narra a história de ascensão e queda do protagonista como se fosse um velho amigo do público, contando uma história inacreditável de viagem em uma reunião. A sensação que dá é que, por cerca de 90 minutos, o público embarca em uma conversa com seu melhor amigo que acabou de voltar viagem e precisava compartilhar suas experiências. Como se ele tivesse vivenciado algo inacreditável e tivesse aquele “fogo” de dividir com alguém querido o caso único viveu.
Essa paixão em compartilhar essa história encanta nos primeiros minutos. Por meio de seu talento incomparável, Malkovich para na lateral do palco, onde interpreta a trama com sua presença de palco, modulação vocal e gestual. Esse jeitão de conversa impede que ele aborde um tema tão complexo, como foi a ditadura chilena, de forma professoral. Entre situações inusitadas e tensas, ele encontra escapismos cômicos que divertem e fascinam na trajetória de um protagonista tão controverso.

Criada pelo próprio John Malkovich, The Infamous Ramirez Hoffman é uma peça que valoriza o trabalho de Roberto Bolaño e dialoga com a arte, em suas mais diferentes vertentes, de forma pura e genuína. Para Malkovich, um ator norte-americano, se arriscar em uma obra de literatura latina em plena América do Sul, requer muita coragem. Já que qualquer má interpretação da história poderia significar uma mancha complicada em sua carreira brilhante. No entanto, o talento e a paixão pela história falam mais alto, criando um espetáculo diferente e muito bem executado.
É uma obra para se desligar do mundo e se encantar com o poder de storytelling de um dos atores mais excêntricos e competentes da história. Você se desconecta de todo o resto por cerca de 1h30, enquanto é transportado para o Chile e para a Europa da década de 1970, conhecendo um pouco mais sobre a história dos tiranos que saíram impunes – e até mesmo louvados – de um dos períodos mais tenebrosos da história de uma nação. O próprio humor trazido é controverso. Você se sente culpado de rir de situações tão baixas, mas isso só é possível graças ao talento do grupo artístico, o que é algo fantástico de perceber. No fim, você termina grato por essa época ter passado e passa a valorizar ainda mais os dias de liberdade, rezando para que outro período tão brutal desses não volte a acontecer.

Com apresentação única no Rio de Janeiro, que abarrotou o Theatro Municipal, Malkovich segue com a peça para São Paulo, onde se apresentará nestas terça (31) e quarta-feira (1º) na Sala São Paulo. Em seguida, ele partirá para Porto Alegre, onde fará apresentação única no Teatro Simões Lopes Neto, na sexta-feira (3 de abril). Os ingressos estão esgotados.


