Dizem que quando uma paixão é avassaladora, a gente perde o rumo, os sentidos, a coerência, e acaba fazendo ou dizendo coisas que em nossos dias normais não faríamos. A ciência tem suas explicações, assim como a religião, a sociologia, a filosofia. Mas fato é que quando amamos verdadeiramente, nós mesmos mudamos. E é esse o mote de ‘June e John’, novo filme de romance de Luc Besson que chega aos cinemas a partir dessa semana, como a grande opção a dois para o dia dos namorados.

John (Luke Stanton Eddy) está com sua vida encaixotada: vai da casa para o trabalho em uma seguradora todos os dias, sem nada de novo, o que, com o passar do tempo, foi gerando crises e mais crises de ansiedade, ao ponto de ele precisar se medicar. Sem conseguir ter um relacionamento, John tem que aguentar a ironia do chefe no trabalho e o descaso dos funcionários com sua pessoa. Ainda por cima, hoje John está tendo um dia muito ruim, e tudo está dando errado… até que, ao voltar para casa de metrô, ele conhece a misteriosa June (Matilda Price). Determinado, John, que não é adepto das redes sociais, cria uma só para tentar encontrar a enigmática jovem de cabelos coloridos. Para sua surpresa, ele não só a encontra, mas ela encontra ele, de surpresa, no dia seguinte, oferecendo-lhe uma alternativa para sua monótona vida com um romance avassalador.
Com uma trajetória de sucesso, o diretor Luc Besson, responsável por clássicos como ‘O Quinto Elemento’ e ‘Lucy’, claramente demonstra sua predileção por realizar filmes com personagens femininas intensas, avassaladoras, em oposição a personagens masculinos que tendem a observá-las e se maravilhar com elas (como é visto nos filmes aqui mencionados). Em ‘June e John’ a proposta é a mesma: um protagonista com vidinha padronizada e zero relacionamentos amorosos cuja vida é salva da mediocridade por uma mulher dona de si e cheia de energia.

Ainda assim, surpreende que o Luc Besson tenha optado por dois atores sem muita carreira cinematográfica para estrelar seu mais novo projeto, numa época em que os realizadores se preocupam com redes sociais e o potencial das bilheterias. Felizmente, Matilda Price rouba a cena desde o momento em que entra, seja por seu brilho natural (que em muitos momentos nos remete à loucura deliciosa e o sorriso aberto de Margot Robbie), seja pela intensidade que entrega à sua atuação. Por ter um papel mais contido, Luke Stanton Eddy (e sua vaga semelhança com Matthew Mcconaughey moreno) funciona como um contraponto mais pé no chão na trama, portanto, boa parte de suas cenas mantém o mesmo olhar de deslumbre.
Além de um elenco que nos lembra outras pessoas, também a história nos remete a tantas outras semelhantes já vista, desde a popular ‘Bonnie e Clyde’ a ‘Thelma e Louise’, passando até mesmo por ‘Anora’ e ‘Um Dia de Fúria’ – só que, em vez de sair destruindo tudo, aqui os personagens decidem ir aproveitando tudo do sistema, apoiando-se numa justificativa bastante clichê.
‘June e John’ tinha bastante potencial, mas ao menos traz novos rostos para o cinema hollywoodiano através de uma história de amor instantâneo e urgente que só mesmo Luc Besson poderia retratar com a angústia da finitude pulsando por cada minuto. Um filme que nos convida a viver mais intensamente até mesmo as menores ocasiões de nossas vidas.

