Crítica | ‘Kill Bill: The Whole Bloody Affair’ é a experiência OTIMIZADA de uma das obras-primas de Quentin Tarantino


Ame-o ou odeie-o, Quentin Tarantino é um dos diretores mais expressivos do cenário contemporâneo da sétima arte, tendo eternizado sua arte através de títulos que causaram grande choque no público e até mesmo na crítica, atraindo ao cineasta um escrutínio público inescapável. Ao longo de sua carreira, Tarantino nos entregou algumas obras-primas do cinema, como ‘Pulp Fiction’ e ‘Bastardos Inglórios’, mergulhando em uma exploração maximizada da violência cenográfica para engajar seu público. Mas, sem sombra de dúvida, um dos títulos mais marcantes de sua filmografia é a aclamada duologia ‘Kill Bill’.

Com relançamento agendado para o próximo dia 5 de março nos cinemas nacionais – e trazendo cenas inéditas em um épico de quase quatro horas e meia de duração que promete arrebatar os cinéfilos e os inveterados fãs da mini-franquia -, o longa-metragem estrelado por Uma Thurman é uma conquista cinematográfica e uma cuidadosa e deturpada exploração da Jornada do Herói, reunindo todos os conhecidos tropos dessa construção mítica para narrar o coming-of-age tardio de Beatrix Kiddo, também conhecida como A Noiva ou Mamba Negra, ex-membro de um grupo de assassinos profissionais que foi traída por aqueles em que confiava e que se lança a uma perigosa vendeta que só terminará com a morte do líder Bill (David Carradine).

O longa, comprimido em uma versão única em 35mm que nos convida a uma experiência única e a um processo de catarse criativa e audiovisual que apenas um nome como o de Tarantino poderia nos entregar, é uma epopeia sobre vingança que em momento algum nos deixa cansados ou entediados, já se iniciando com uma poderosa sequência em que as motivações de Beatrix são trazidas à tona. Afinal, durante o ensaio de seu próprio casamento, ela e seus convidados foram atacados pelos membros do Esquadrão Víbora Mortal – incluindo Bill, O-Ren Ishii (Lucy Liu), Vernita Green (Vivica A. Fox), Elle Driver (Daryl Hannah) e Budd (Michael Madsen) -, que assassinaram todos no local, mas falharam em, de fato, colocar um fim na vida da protagonista.

Quatro anos mais tarde, ela acorda do coma e descobre que levou um tiro na cabeça, não falecendo por um milagre – mas forçada a conviver com os fantasmas do falecido noivo e da filha que nunca viu a luz do dia, lançando-a a um ímpeto de fúria mortal. Reunindo todo o treinamento pelo qual passou, ela navega pelo submundo da máfia japonesa, pelo árido deserto texano e pelo subúrbio californiano para encontrar seus alvos e finalizar uma missão regada a sangue, retaliação e redenção – e o impecável resultado permanece tão bom quanto, senão melhor, com a chegada da nova versão às telonas de todo o mundo, reiterando o impacto cultural da duologia.

Se você já assistiu a alguma produção de Tarantino, sabe que sutileza não é o seu forte; nesse quesito, ‘Kill Bill’ talvez seja a representação máxima de um apreço pelo exagero, por uma overdose imagética de cores explosivas, uma pungente e ecoante trilha sonora, e uma montagem que renega a cronologia como a conhecemos e promove uma narrativa não-linear que, de alguma forma, encontra sentido dentro da espiral de loucura e ira a que Beatrix é arremessada. Não é surpresa que, para alcançar seu objetivo, o diretor e roteirista se aproprie das estruturas de exploitations e dos clássicos de artes marciais, prestando homenagens a ‘Vingança na Neve’, Bruce Lee e aos filmes dos Irmãos Shaw.

O realizador leva o tempo necessário para apresentar cada um dos núcleos de que se dispõe, garantindo que cada um dos personagens tenha importância significativa na compulsória jornada de Beatrix, que passa longe de ser a “mocinha” e transforma a conhecida construção arquetípica da anti-heroína em algo ao mesmo tempo mais palpável e mais incrível, dotando-a de falhas que constantemente colocam sua vida em risco. Para isso, Thurman faz um trabalho impecável, retomando colaboração com Tarantino após ‘Pulp Fiction’ e eternizando a complexa personalidade de Mamba Negra em um dos projetos mais aplaudidos e conhecidos de sua carreira.

A atriz não está sozinha nessa empreitada, sendo acompanhada pela presença majestosa e opressora de nomes como Liu, que rende-se à melhor performance de sua carreira como uma jovem que presenciou o brutal assassinato dos pais e se tornou não apenas uma habilidosa assassina, como a líder dos yakuza em Tóquio; Hannah, que encarna um sedutor e implacável membro do Esquadrão, movida por uma mistura antitética de inveja e respeito por Beatrix; Fox e Budd dividindo linhas mais reduzidas, mas de igual magnitude para esse épico fílmico; e o saudoso Carradine como o temerário e maquiavélico Bill, força-motriz que catapulta a protagonista em sua jornada sem fim.

Há duas décadas, Tarantino entrega uma obra-prima da sétima arte com o lançamento dos dois capítulos de ‘Kill Bill’; agora, somos convidados a regressar a esse limiar entre a fantasia e a realidade com ‘Kill Bill: The Whole Bloody Affair’, uma declaração de amor do próprio cineasta às escolas fílmicas que o influenciaram e uma reafirmação de idiossincrasias temáticas e estéticas que, voltando às telonas, urgem em uma criatividade sem limites – e uma defesa propositalmente consciente e sensacionalista da violência como “meios para um fim”.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.