sábado, fevereiro 7, 2026
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Crítica | Lady Gaga e Tony Bennett criam uma obra-prima com o evocativo ‘Love for Sale’





Lady Gaga e Tony Bennett colaboraram pela primeira vez ainda em 2011, quando a lenda do jazz convidou a Mother Monster para uma aclamada rendição de “The Lady is a Tramp”. Não demorou muito até que os artistas unissem forças para um álbum completo; intitulado Cheek to Cheek e lançado em 2014, o disco serviu como divisor de águas para a carreira de Gaga, que se afastou do pop e do electro-rock e provou sua versatilidade, além de ter servido como uma elogiada adição ao prolífico percurso trilhado por Bennett. Não é surpresa que os dois tenham conquistado o Grammy de Melhor Álbum Vocal Pop Tradicional e o topo das paradas da Billboard, quebrando inúmeros recordes e conquistando ouvintes das mais diversas gerações.

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Sete anos mais tarde, os icônicos performers resolveram se juntar mais uma vez com um segundo álbum colaborativo, intitulado Love for Sale. Após as belíssimas homenagens feitas a nomes como George Gershwin, Cole Porter, Jerome Kern e Irving Berlin, Gaga e Bennett resolveram continuar o projeto de apresentar a universalidade do jazz ao público mais jovem com um tributo especial a Porter, separando doze faixas (na versão deluxe, vale lembrar) pinceladas com uma química apaixonantes e com um sabor agridoce que acompanha a despedida de Tony do cenário fonográfico após ser diagnosticado em 2016 com Alzheimer. Por essa razão e por tudo o que o cantor e compositor representa para a história, não podemos deixar de nos emocionar track a track, ainda que a construção e a progressão sejam divertidas e dançantes.

A produção pode não ser a primeira opção dos apaixonados pela carreira mainstream de Gaga ou daqueles que não tem um apreço significativo pelo jazz e pelo blues. Entretanto, principalmente a seus fãs mais antigos, é necessário apreciar as várias formas com que ela se entrega de corpo e alma – e Love for Sale não seria diferente. Gaga sempre se mostrou fã do gênero e comentou em inúmeras entrevistas que Bennett havia salvado sua vida (afinal, não podemos nos esquecer da injusta represália que ela sofreu pouco depois do lançamento de ‘ARTPOP’). Tony ajudou-a a reencontrar o gosto pela música e pelo canto e permitiu que ela ousasse sair dos rótulos a que se restringia. Enquanto Cheek to Cheek de fato teve alguns problemas estruturais, essa nova e antecipada colaboração acertou em cheio no que se propôs a entregar e arrancou uma química invejável de duas das vozes mais potentes de suas respectivas gerações.

O álbum se inicia da maneira mais inteligente e instigante possível, com  uma interpretação irretocável de “It’s De-Lovely”. A canção original foi lançada em 1936 e tornou-se uma das assinaturas de Porter; acompanhada do classicismo do pré-guerra, a iteração é considerada um dos maiores sucessos do compositor e foi adotada com respeito aplaudível por Gaga e Bennett. A versão é marcada pelo impacto de vocais tão diferentes entre si e que, contrariando todas as expectativas, se complementam em uma deliciosa explosão sensorial. É notável como a dupla demonstra estar se divertindo, quebrando as barreiras engessadas da música e conversando um com o outro em meio aos neologismos “de-lightful, de-licious, de-lirious, de-lovely” e ao nostálgico som do trompete e do baixo.

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Felizmente, a atemporal jornada a que eles nos convidam não se dispôs sem um breve material promocional que incluiu a música titular e o lead single “I Get A Kick Out Of You”. Esta aposta em uma reclusão intimista e romântica que enlaça gerações tão diferentes e mostra que, mesmo aos 95 anos de idade e sofrendo de um mal irrefreável e irrecuperável, Bennett ainda tem paixão pelo que faz e emociona a cada sílaba proferida; aquela, por sua vez, carrega as memórias de Kathryn Crawford no musical ‘The New Yorkers’ e deixa que o cantor carregue a primeira metade e prepare o terreno para a fluidez da mezzo-soprano. O resultado é inenarrável e transcende os meros comentários técnicos, como o pungente solo do saxofone, pavimentando uma mandatória experiência pessoalista que nos arranca da cruel realidade e nos leva numa viagem onírica e muito especial.

Bem como Cheek to Cheek, Gaga toma as rédeas de uma performance solo de tirar o fôlego e, aqui, mergulha nas profundezas de “Do I Love You”. A cantora estende suas incursões para Barbra Streisand numa teatralidade surpreendente e que há muito não era vista no escopo fonográfico, declamando seu amor por Bennett e agradecendo por todos os momentos que ele lhe proporcionou – como se estivesse se despedindo (por ora, e não para sempre). Bennett também demonstra sua força com a fabulesca e surpreendente atmosfera de “So in Love”, uma das melhores tracks do álbum, e em “Just One of Those Things”. E, depois de se renderem à bossa-nova de “I Concentrate on You”, retornam no prenúncio conclusivo de “Dream Dancing” antes de encerrarem a candura e a elegância dessa aventura com a animada “You’re the Top”.

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Love for Sale é uma colaboração que deve e que merece ficar marcada para a história, reunindo dois nomes incríveis e necessários em uma obra-prima do começo ao fim. Mais do que isso, o álbum funciona como um plástico escape cuja importância vai para muito além do lugar-comum e desconstrói as formulaicas ideias do que significa fazer arte.

Nota por faixa (versão deluxe):

1. It’s De-Lovely – 5/5
2. Night And Day – 4,5/5
3. Love For Sale – 5/5
4. Do I Love You – 5/5
5. I’ve Got You Under My Skin – 3,5/5
6. I Concentrate On You – 4/5
7. I Get A Kick Out of You – 4,5/5
8. So In Love – 5/5
9. Let’s Do It – 5/5
10. Dream Dancing – 4/5
11. Just One of Those Things – 5/5
12. You’re The Top – 5/5

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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