Crítica | Lisa McGee une suspense, comédia e mistério na esplêndida e caótica série ‘De Belfast ao Paraíso’

Em 2018, Lisa McGee dava vida a uma das séries de comédia mais elogiadas das últimas décadas – a divertida e inspiradora Derry Girls, que nos apresentou a algumas das personagens mais incríveis do cenário televisivo contemporâneo ao nos arremessar para a explosiva Irlanda do Norte nos anos 1990, explorando as turbulências da vida adolescente àquela época. Após conquistar o mundo com a produção, McGee começou a desenvolver um novo projeto, que chegou recentemente ao catálogo da Netflix sob o título De Belfast ao Paraíso – que nos leva de volta ao idílico cenário irlandês para uma vibrante e irretocável mistura de comédia ácida, mistério e suspense que nos envolve desde os primeiros segundos.

A trama é centrada em três amigas: Saoirse (Roisin Gallagher), uma ansiosa roteirista de televisão que não está na feliz com a situação em que está, tanto no âmbito profissional, quanto pessoal; Robyn (Sinéad Keenan), uma impetuosa mãe de três filhos que equilibra as várias esferas de sua vida sem quaisquer papas na língua; e Dara (Caoilfhionn Dunne), uma divertida e um tanto quanto avoada mulher que é movida pela culpa cristã e que tenta ajudar todos como pode. O trio se reúne após a morte inesperada de uma antiga colega de quem eram muito próximas quando estavam no colégio, Greta (Natasha O’Keefe) – decidindo viajar para a cidade natal, o Condado de Donegal, para prestar condolências e respeito à família após receberem um e-mail com as tristes notícias.

Logo de cara, começamos a ter algumas dicas do motivo pelo qual elas se afastaram de Greta – e as coisas começam a ganhar um tom sinistro quando, ao chegarem ao local da cerimônia, ninguém está lá com exceção da estranha família, que inclui o agora ex-marido da falecida, Owen (Emmett J. Scanlan), chefe da delegacia local, e da bizarra matriarca Fargo (Michelle Fairley). Saoirse, Robyn e Dara, então, são arremessadas em uma complexa artimanha ao descobrirem que o corpo do caixão, na verdade, não pertence a Greta (e que todo aquele mistério pode estar atado a segredos de um passado remoto que tentaram manter escondidos por décadas).

Através de oito belíssimos episódios, McGee mostra que ainda tem ótimas histórias para contar a seus fãs – e faz isso com um comprometimento invejável que já transforma a série em uma das melhores do ano. À medida que procura um ponto de equilíbrio entre múltiplos gêneros narrativos, como já mencionado, a showrunner reitera uma habilidade artística imprescindível para que as múltiplas tramas e subtramas sejam exploradas como devem, sem mergulhar em frenesis cansativos e sem se estender por demasia em cenas de maior contemplação dramática, por assim dizer. O ponto de maior sucesso emerge quando a realizadora demonstra fé no conceito do projeto e o destrincha em pequenas obras-primas audiovisuais.

É possível que o escopo super-despojado da atração não seja para o gosto de todos, mas, por trás de toda a estrutura arlequinesca e despretensiosa, há um intrigante suspense que toma forma cena a cena e que leva as protagonistas a perceberem que precisam desvendar a verdade antes que seja tarde demais. Para tanto, McGee se alia ao esplêndido trabalho dos diretores de fotografia Ashley Barron, Nathalie Pitters e Daniel Stafford-Clark, que imprimem não apenas uma estética “fantasiosa”, por assim dizer, mas se utilizam de lentes olhos-de-peixe e enquadramentos exagerados para garantir uma sarcástica angústia cômica que irrompe das telas o tempo inteiro.

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As escolhas imagéticas não param por aí e, de certa maneira, McGee escala membros para sua equipe criativa que permitem uma espécie de extensão identitária entre esta série e Derry Girls, mas optando por uma paleta de cores que nos remete a filmes como ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, ‘O Grande Hotel Budapeste’ e ‘John Wick’ – utilizando cores neons e contraditórias que transformam o idílico Condado em um palco teatral com toques shakespearianos. E, completando o profundo estudo cinemático que se apodera do enredo, temos a caprichosa e fabulesca trilha sonora de Sion Trefor, que exalta a cultura irlandesa em uma união entre passado e presente.

O elenco irrompe como a cereja de um delicioso e viciante bolo confeitado, com destaque óbvio a Gallagher, Keenan e Dunne: o trio de atrizes principais tem um timing invejável para a comédia e uma disposição metadiegética que não apenas reafirma a popularidade de histórias do gênero, como critica certos convencionalismos que são continuamente repetidos – apoiando-se em uma metalinguagem que as torna mais complexas e envolventes episódio a episódio. Também temos a bem-vinda presença de outros nomes, como Darragh Hand como o charmoso policial Liam, que se envolve com o caso mais do que deveria; e a conspícua Bronagh Gallagher como Booker, uma duvidosa mulher que sabe exatamente o que quer.

Mais uma vez, Lisa McGee criou mágica ao nos presentear com a inebriante De Belfast ao Paraíso, uma série destinada não apenas aos fãs de Derry Girls, mas a qualquer um que procure um bom entretenimento para devorar de uma só vez – e que, uma vez que se aperta o play, se torna impossível de pausar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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