Lovecraft Country é um dos raros casos de série que conseguiu nos manter viciados logo no primeiro episódio. Diferente de outras adaptações, que parecem inconscientemente pedir para que conheçamos o romance original antes de nos aventurarmos em uma nova perspectiva, é incrível o modo como a criadora e showrunner Misha Green se manteve tão fiel ao que pretendia nos entregar que criou um universo do zero, fornecendo explicações sem cair em redundâncias sobre os personagens principais, sobre uma clássica mitologia que ganhava uma complexa profundidade e, principalmente, sobre criaturas monstruosas que habitam os confins abismais da terra. É claro que a produção original da HBO passou por certos deslizes (como é costumeiro de qualquer obra), mas, nas últimas duas semanas, reencontrou seu ritmo e fechou pontas soltas com fluidez excepcional.

No penúltimo capítulo antes do grand finale, intitulado “Rewind 1921”, Green voltou a tomar as rédeas do roteiro para nos apresentar à iteração mais poderosa da primeira temporada – mais poderosa até que o soberbo piloto. Fazendo o que sabe de melhor (isto é, misturando evocações da ficção científica com um conciso drama de época), ela se aliou a Jeffrey Nachmanoff e à sua conhecida carreira para tragédias envolventes, como o apocalíptico ‘O Dia Depois de Amanhã’, para retornar aos distúrbios supremacistas que culminaram no massacre da cidade de Tulsa no início da década de 1920 – em que um grupo de pessoas brancas realizou ofensivas criminosas contra a comunidade de Greenwood. Espancando pessoas negras e queimando casas com famílias inteiras dentro, o episódio é um dos mais infelizes da história mundial e um reflexo da segregativa sociedade estadunidense que se mantinha viva desde sempre e ganhava forças com as reminiscências da Era Jim Crow.


Mais uma vez, devo deixar claro que Green, acompanhada de uma competente equipe criativa – talvez uma das melhores e mais sagazes dos últimos anos -, cuida para que o panfletarismo político não transforme essa fantasiosa reinvenção do cotidiano em um melodrama novelesco e presunçoso. É claro que as inferências críticas, principalmente as que se referem ao contexto social e à luta de classes no século XX, existem – e devem existir, por mais travestidos de incursões fabulosas que estejam. Entretanto, o enredo abre espaço para arquiteturas alegóricas fantásticas, que não se restringem a apenas um lado da moeda, e cuida para que esse turbilhão emocional seja sólido e crível o suficiente para nos manter ligados do começo ao fim.

Nessa mais nova aventura – a última antes da grande batalha entre o “bem” e o “mal (por falta de comparações que se afastem do maniqueísmo cinemático) -, nossos heróis enfrentam as consequências de uma maldição caída sobre a jovem Diana (Jada Harris), que está se transformando gradativamente em uma criatura monstruosa. Apesar dos esforços de Christina (Abbey Lee) em ajudá-la, não é até o retorno inesperado de Hippolyta (Aunjanue Ellis) de sua viagem multidimensional e sua imposição imediata em salvar a filha – em uma proteção que segue a recente perda de George (Courtney B. Vance). Hippolyta leva Diana para o mesmo observatório em que cruzou caminho com os seres extraterrestres que lhe apresentaram a sabedoria do mundo e, transformada em uma espécie de placa-mãe, abre um portal para o passado.

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É aí que entram Tic (Jonathan Majors), Leti (Jurnee Smollett) e Montrose (Michael K. Williams). O trio atravessa a dimensão e se vê diante de uma cidade que não tem ideia do que está por vir – e, finalmente emergindo como protagonista de seu próprio arco e não estando à mercê de outrem, Montrose revive momentos aterrorizantes de sua adolescência: o conflito com sua sexualidade, o medo constante das atitudes machistas e preconceituosas do pai e o prospecto de ver seu primeiro amor ser assassinado a sangue-frio. Aliás, finalmente compreendemos as ações injustificáveis dessa conturbada persona, que tentou ser o “homem” que sua família sempre quis e canalizou as frustrações de uma vida incompleta para Tic (que descobre nem ao menos ser filho de Monstrose, e sim de um caso romântico entre George e sua falecida mãe, Dora).

Green é cautelosa ao extremo para não deixar que a iteração se renda à espetacularização barata, e sim à recriação não exata, mas com uma necessidade contemporânea que nos obriga a ver de frente até que ponto o ser humano pode ser cruel. A showrunner até mesmo busca referências de outras produções que mexeram com viagem no tempo (com uma homenagem imagética clara e relativamente forçada a ‘Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’) para colocar Tic como a força-motriz dos arcos que se estendem no espaço-tempo e que os mantém unidos em uma amálgama única. E Leti, por sua vez, é obrigada a não mudar o que já aconteceu, por mais que queira salvar a todos e impedir que seus algozes vençam mais uma vez.


Pontilhado com sequências de ação de tirar o fôlego e um minimalismo sinestésico sintetizado nos pontos principais do que vínhamos acompanhando até agora, o penúltimo capítulo de Lovecraft Countrydá as cartas do jogo e deixa que seus peões falem por conta própria. Está na hora da última ceia lovecraftiana – e as expectativas nunca estiveram tão altas.

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