Crítica | Mallandro: O Errado Que Deu Certo – Cinebiografia do Artista é Presente Afetivo Para Quem Viveu os Anos 90



Ah, os anos 1990 na tv brasileira… quem viveu, sabe. Quem não viveu, ouviu dizer. Num tempo anterior à internet e aos streamings, a tv aberta era a principal forma de comunicação sobre tendências, moda, publis etc.

Os programas de auditório eram concorridíssimos, e quem se apresentava se tornava automaticamente um sucesso. Alguns desses nomes se mantêm em voga até hoje; outros, como o humorista Sérgio Mallandro, viveu altos e baixos na carreira, sendo sua história particular, na verdade, bastante desconhecida do grande público. Mas agora o humorista ganha sua própria cinebiografia ficcionalizada (e estrelada por ele mesmo) através do filme ‘Mallandro: O Errado Que Deu Certo’, que chega a partir de amanhã nos cinemas brasileiros.

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Sérgio Neiva Cavalcanti está à beira da falência. É que Sérgio vive todo o seu tempo como a persona que criou, o Sérgio Mallandro. Acontece que Sérgio Mallandro não dá mais lucro. Recém eliminado de um reality show, ele busca uma forma de sustentar seus filhos, Mila (Marianna Alexandre, que dubla a voz da ‘Wandinha’ na série) e Lucca (Gui Garcia, da minissérieSantos Dumont’), mas ninguém quer chamá-lo pra nada. Diante dos boletos, Sérgio Mallandro terá que se reinventar para voltar à evidência novamente, porém, essa jornada não será fácil, pois muitas confusões aparecerão em seu caminho para fazer com que Mallandro se questione o tempo todo se conseguirá sustentar sua família e seu personagem para sempre.

É bem verdade que o personagem Sérgio Mallandro faz mais sentido para a turma dos anos 1980/1990, entretanto, o filme ‘Mallandro: O Errado Que Deu Certo’ vai muito além. O roteiro de Ulisses Mattos (‘Altas Expectativas’) e Sylvio Gonçalves (‘Morando com o Crush’) – com colaboração do próprio biografado e de Pedro Antônio (de ‘Evidências do Amor’) – parte desse personagem enigmático que é o Serginho e constrói uma surpreendentemente emocionante história ao redor dele. Misturando ficção e realidade, o filme narra episódios reais que ocorreram com o biografado (como a história do assalto, ou a do ônibus) mas tecidas de maneira ficcional, de modo a costurar um evento no outro dentro de um enredo que faz sentido para quem assiste mas sem ser no formato de stand-up comedy. Um roteiro cuidadoso com o seu objeto de estudo e atento aos anseios do público espectador, entregando sequências nostálgicas que nos transportam de volta aos anos 90.

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Pessoa vestindo terno branco em pé frente à janela.

Tendo trabalhado em outros projetos com Sérgio Mallandro, o diretor Marco Antonio de Carvalho (de ‘Fazendo Meu Filme’) encontra o tom certo para contar em imagens a história desse personagem. O diretor emprega sensibilidade e emoções ao fazer transitar o protagonista sempre em estado de descoberta no mundo que o cerca e incluir participações especiais no projeto, com nomes como Zico, Nanny People e Xuxa. Em sinergia com a diretora de arte Raíza Antunes, vemos Mallandro sempre vibrando energia e cores a todo o instante, em contraste com um ambiente quase monocromático de fundo, hora estourando no branco, hora na escuridão de um set. A diretora de arte, aliás, conseguiu ambientar bem o clima de anos 90 numa época contemporânea, que o diretor Marco Antonio soube utilizar para dialogar com duas gerações ao mesmo tempo em seu filme.

Para quem acha que entrar numa banheira de Nutella é novidade da geração millenial, ‘Mallandro: O Errado Que Deu Certo’ tá aí para apresentar aos jovens que antes dos youtubers, havia (e ainda há) um Mallandro. Para quem acompanhou aquela época e acha que o filme vai ser uma sequência de pegadinhas, ledo engano: a história, que em sua maioria é baseada na comédia, subitamente dá uma guinada para o drama e pode até mesmo arrancar uma lagriminha no final.

Com produção de Gláucia Camargos e a Melodrama Filmes, ‘Mallandro: O Errado Que Deu Certo’ bebe na memória afetiva coletiva para construir uma história que se funde à história do humor brasileiro. ‘Mallandro: O Errado Que Deu Certo’ é engraçado e emocionante, rá! yeah-yeah!

Homens presos discutem com policial na cadeia.
©fÁbio bouzas, abc
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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.