Crítica | ‘Mapago’ – Os silêncios enraizados em nosso país [Festival Cinemato 2026]

Trazendo para o centro da tela a ancestralidade se misturando no momento presente de um povo indígena profundamente ligado às águas, chegamos ao quarto dia de exibições da Mostra de Curtas-Metragens nacionais do Festival Cinemato 2026 e fomos apresentados a Mapago, projeto audiovisual do Mato Grosso do Sul dirigido por Marcus Telles.

Cheio de possibilidades em sua narrativa, que opta por uma fluidez que envolve o concreto de realidades marcadas por injustiças ao universo sobrenatural, por meio de simbolismos que se mostram importantes para a construção de um povo e de sua luta pela identidade, o projeto nos coloca de frente com questões, entre elas as socioambientais, que revelam os tipos de silêncios enraizados em nosso país.

Em Mapago, conhecemos Serena, uma jovem moradora da periferia e indígena Guató, um povo legítimo do Pantanal, que busca realizar seus sonhos, na atualidade, seguindo a carreira de cantora de funk. Sua mãe, Facunda, evangélica, está em um momento complicado: recém-demitida, precisa sobreviver da maneira que consegue. Ao longo dessa história, vamos caminhando em uma trama que entrelaça o presente e passado, deixando lacunas para se refletir sobre o futuro.

O projeto aborda de forma interessante a ancestralidade e traça paralelos com as lutas do presente. Também percorre a fé e os conflitos culturais, mostrando que a força da resistência ao caos do momento atual começa no passado, por meio do aparecimento espiritual. A força das mensagens ganham intensidade através de Facunda, interpretada pela atriz indígena Guató Gleycielli Nonato Guató que, muitas vezes apenas com o olhar, provoca intensa comoção, caminhando nas emoções e no silêncio de forma impactante.

Por meio de legendas exibidas no início e no fim do curta-metragem, somos situados em alguns pontos que marcaram a trajetória dos Guatós, povo declarado extinto pelo estado brasileiro desde a década de 1950 e que só voltou a ‘existir´ oficialmente em meados da década de 1970. Lutando contra a identidade perdida, e muitas vezes não reconhecida, mãe e filha são retratos de um brasil silencioso, que ganham oportunidade de fala através da sétima arte.

 

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.