Cuidado: spoilers à frente.
Em 2021, a Marvel Studios deu vida a um interessante e elogiado projeto que ficaria conhecido como ‘What If…?’. A animação, que apresentou realidades alternativas para os clássicos e populares personagens do Universo Cinemático Marvel, conquistou a crítica e o público e se destacou não apenas pelas investidas estilísticas, mas por histórias cativantes e instigantes – em especial um incrível episódio em que a realidade como a conhecemos foi destruída por um poderoso vírus zumbi que infectou os próprios Vingadores, dizimando a raça humana e deixando pouco heróis no último front contra um perigo inescapável.
Agora, quatro anos depois dessa ótima iteração, essa popularidade se transformou um spin-off intitulado ‘Marvel Zumbis’, que chegou à plataforma de streaming hoje, 25 de setembro. Ao longo de quatro episódios, a minissérie derivada criada por Bryan Andrews e Zeb Wells acerta em cheio ao expandir essa realidade paralela, contando com a presença de rostos bastante familiares dentro do MCU – mas que falha em explorar todo o seu potencial e aposta em tropos bastante familiares para nos satisfazer em alguns aspectos, e nos deixar com um gostinho agridoce de frustração em outros.

Para aqueles que não se lembram, o episódio original envolvendo a devastação do vírus-zumbi terminou com T’Challa, Homem-Aranha e a cabeça de Scott Lang chegando em Wakanda apenas para se depararem com um Thanos-zumbi prestes a completar a Manopla de Poder. Sacrificando-se para o bem maior, T’Challa cai junto a Thanos no núcleo de vibranium líquido, fragmentando as Joias do Infinito e liberando uma quantidade devastadora de energia. Para canalizá-la e contê-la, Hulk toma a frente e se torna alvo da perigosa Rainha dos Mortos, Wanda Maximoff, que se libertou das amarras de Visão e agora deseja colocar as mãos na energia das Joias para planos maquiavélicos – e que serão concretizados com a ajuda de um gigantesco exército de mortos-vivos que ela controla e que inclui boa parte dos Vingadores caídos.
É aí que entra Kamala Khan: a jovem, acompanhada das amigas Kate Bishop e Riri Williams, coloca as mãos em um dispositivo que pode salvar o planeta e restaurar o mínimo de ordem em meio a uma devastação extrema. Esse objeto tem a capacidade de emitir uma frequência que pode atrair os Nova Corps – uma força militar e policial intergaláctica – e solicitar a ajuda deles. O problema é que, para isso, o dispositivo precisa ser levado ao espaço, e o único lugar que possui uma nave capaz de levá-los para lá está em Nova Asgard. Isso significa que Kamala e seus aliados, que incluem o Guardião Vermelho, Yelena Belova e Blade, serão obrigados a enfrentar obstáculos inimagináveis para alcançar seu objetivo.

Enquanto a produção acerta em cheio em nos surpreender com a presença de personagens inesperados, que também contam com Shang-Chi e Katy, Namor, Jimmy Woo e Barão Zemo, o principal deslize destina-se à narrativa. É claro, apostar na presença de Wanda é sempre certeiro, como vimos nos longas-metragens e na série-solo ‘WandaVision’ – e a complexidade da personagem é algo admirável e que merece nossa atenção, visto que ela inclusive consegue enfrentar até mesmo Thor quando transformada em um implacável zumbi. E, considerando a inegável popularidade da personagem, colocá-la contra heróis que definitivamente mereciam mais reconhecimento foi uma escolha ousada e que deu partida nessa aterrorizante jornada para salvar o mundo.
Porém, é impossível deixar de notar que boa parte das escolhas e das reviravoltas partem de tropos muito conhecidos dos gêneros de terror e suspense, o que torna o enredo um tanto quanto previsível e cansativo. E, enquanto ‘What If..?’ nos encantou com uma bela originalidade narrativa, esses quatro episódios parecem mais um especial televisivo de Dia das Bruxas do que algo que, de fato, seja memorável. As múltiplas subtramas eventualmente convergem para um inesperado e derradeiro finale, chamando a atenção por investidas audaciosas que tornam qualquer um passível de encontrar a própria ruína; todavia, para além da praticidade e da total despretensão, não há nada que fique, de fato, cravado na memória.

Se de um lado a dosagem entre drama, suspense e comédia mostra-se descompensada, o trabalho do elenco tenta ao máximo ofuscar os equívocos, trazendo dinamismo e ritmo à produção. Temos o retorno de Iman Vellani, Dominique Thorne, Simu Liu, David Harbour, Elizabeth Olsen, Hudson Thames, Awkwafina e tantos outros para personagens que ajudaram a eternizar dentro do MCU, enquanto nomes como Kari Wahlgren, Greg Furman e Adam Hugill fazem uma estreia competente. E, como podemos imaginar, um dos destaques vai para a presença de Todd Williams como uma versão bem diferente do Blade a que estamos acostumados – aqui, servindo de receptáculo para o deus egípcio Konshu e transformando-se no Cavaleiro da Lua.
‘Marvel Zumbis’ pode não ser uma minissérie ruim, mas certamente teve medo de explorar todo seu potencial, como mencionado alguns parágrafos acima. Ainda que o espetáculo visual seja um dos elementos que garanta nosso interesse, não deixamos de pensar que a execução da história poderia ter sido mais meticulosa e inspirada.
