Apresentado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, Me Ame Com Ternura (Love Me Tender), primeiro longa-metragem de ficção da diretora francesa Anna Cazenave Cambet, chega aos cinemas brasileiros ancorado em uma premissa que, à primeira vista, pode remeter a um clássico do cinema judicial como Kramer vs. Kramer (1979). Mas a semelhança é apenas inicial — e, em muitos sentidos, enganosa.
Adaptado do romance homônimo de Constance Debré, o filme acompanha Clémence (Vicky Krieps), uma advogada e mãe, que se vê tragada por uma batalha judicial não por ter abandonado o lar, mas justamente por ter afirmado sua liberdade. Já divorciada, Clémence revela ao ex-companheiro Laurent (Antoine Reinartz) que está se relacionando com mulheres. A partir desse momento, o conflito se instala: após um fim de semana na casa do pai, o pequeno Paul (Viggo Ferreira-Redier) se recusa a voltar a ver a mãe, e o ex-marido entra com uma denúncia alegando que ela submete a criança a comportamentos obscenos e moralmente indevidos.

O que poderia se estruturar como um drama jurídico clássico se transforma, nas mãos de Anna Cazenave Cambet, em um filme que evita o tribunal como espetáculo. A disputa legal existe, mas nunca encontra um verdadeiro ápice narrativo. Embora coerente com a ideia de um sistema opressor e burocrático, essa escolha acaba tornando a experiência cansativa. A ausência de um clímax faz com que o filme se mova em círculos, reiterando a mesma dor sem oferecer novas camadas dramáticas.
Vicky Krieps, como já demonstrou em filmes como Trama Fantasma (2017) e Corsage (2022), é uma atriz de impressionante versatilidade. Seja no cinema norte-americano, francês ou alemão, ela consegue nos convencer independentemente do papel. Há algo em seu rosto que captura o olhar do espectador, uma presença que convida à empatia quase automaticamente. Em Me Ame Com Ternura, ela está bem — contida, digna, silenciosamente ferida. Ainda assim, nem mesmo sua força interpretativa é suficiente para compensar as fragilidades da narrativa.

A diretora estreante aposta em uma mise-en-scène sóbria, estruturada em capítulos e atravessada por uma voz off que retoma trechos do livro de Debré. A opção instaura um distanciamento reflexivo coerente com o dispositivo narrativo, mas acaba por produzir também um afastamento emocional em relação à protagonista. Pouco se revela da vida de Clémence para além do embate com o filho e da engrenagem judicial que a engole. Seus afetos, desejos e cotidiano permanecem elididos durante a disputa pela guarda da criança — inclusive no romance mal engendrado com Sarah (Monia Chokri) —, o que fragiliza a possibilidade de uma conexão mais profunda com a personagem.
Algumas cenas se tornam repetitivas, especialmente os encontros entre mãe e filho, sempre marcados por silêncios, olhares interrompidos e despedidas dolorosas. A repetição não gera progressão emocional: as angústias retornam, mas raramente se transformam. Falta ao filme a percepção concreta da passagem do tempo — a consciência de que aquelas feridas não serão apaziguadas e de que o tempo perdido entre mãe e filho nunca mais poderá ser recuperado.
Esse deveria ser o ponto mais dilacerante do filme. A constatação de que a infância passa, de que o vínculo se rompe sem retorno possível, de que o sistema não apenas pune, mas rouba o tempo. Esse elemento, no entanto, nunca se impõe como verdadeira força dramática. Ele existe, mas permanece à margem, como se o filme evitasse mergulhar totalmente nessa dor irreversível.

Ainda assim, Me Ame Com Ternura encontra sua relevância ao abordar o preconceito vivido por uma mulher homossexual — e, sobretudo, por uma mãe — em pleno século XXI. Ao deslocar o foco da figura masculina tradicionalmente associada à dor romântica (evocada ironicamente pelo título inspirado na canção de Elvis Presley) para uma mulher privada do direito de amar e maternar, o filme escancara o quanto a sociedade ainda impõe limites violentos às existências que escapam da norma.
Mesmo deixando a desejar em termos de cadência e envolvimento emocional, Me Ame Com Ternura provoca uma ressonância incômoda: até que ponto avançamos, de fato, quando a liberdade afetiva de uma mulher ainda pode ser usada como arma contra ela? É nessa fricção entre potência temática e fragilidade narrativa que o filme se sustenta, imperfeito, por vezes exaustivo, mas impossível de ignorar.
Lançado no Festival de Cannes e no Festival do Rio, em 2025, Me Ame Com Ternura chega aos cinemas brasileiro nesta quinta-feira, dia 15 de janeiro, com distribuição da Imovision.


