Crítica | Megalopolis – Coppola cria fantasia ancorada em discurso político, porém com CAPENGA tom burlesco

Será que a ambição nos leva a cometer loucuras? Esta pergunta é pertinente tanto do ponto de vista da trama quanto dos bastidores da produção. É impossível falar de Megalopolis, de Francis Ford Coppola, sem contextualizar os anos de produção que o filme levou para ser feito e a rejeição de investidores ao projeto.

Desde da década de 1980, o renomado diretor — ganhador de cinco Oscar e duas Palmas de Ouro — sonha com este filme. Megalopolis é uma fantasia sobre política social, no entanto, ancorada em elementos do cinema de várias épocas e, principalmente, no caráter burlesco. 

Enquanto a encenação dos atores é propositalmente teatral, a estética do longa é futurista e espelha-se na ambientação de ficção-científica. Confuso? Pois é. Francis Ford Coppola apresenta uma montagem de elementos sobrepostos de maneira bastante desarmoniosa. 

Se nas cenas iniciais temos a sensação de pisar em um solo parecido com o de Christopher Nolan, onde temos que descobrir a lógica da obra para segui-la. Logo depois, compreendemos que esta é apenas uma ponta do espetáculo proposto pelo cineasta, o qual faz referências de dezenas de obras cinematográficas, assim como literárias, num roteiro em que a citação é rainha de todos os discursos. 

Em uma alusão direta a Metrópolis (1927), de Fritz Lang, Megalopolis propõe ser futurista, mas ancorado nas mazelas atuais, principalmente sobre a insustentabilidade do modelo capitalista, ao invés de ser na era industrial, é na digital. Para isso, no entanto, utiliza-se de linguagens antigas de forma cômica e satírica. 

Outra ponte traçada pelo cineasta é o Império Romano, sucumbido pela soberba de poder de poucos homens, uma referência, talvez, ao aumento de bilionários nesse planeta. A própria cidade fictícia chama-se New Rome, uma mistura de New York a ao império de Júlio César, e o narrador (Laurence Fishburne) nos lembra a cada momento desse espírito histórico em suas interferências.  

A interpretação mais memorável é a de Shia LaBeouf como Clodio Pulcher, por conta do seu caráter dúbio e andrógeno, tal como o bobo da côrte, já que todos os outros personagens  parecem terem saído de folhetins dos anos 1930. Além disso, os papéis femininos são unidimensionais. 

Uma é a mocinha Júlia Cicero (Nathalie Emmanuel), que vai apaixonar-se pelo arquiteto utopista Caesar Catalina (Adam Driver) a contragosto do seu pai, o prefeito Franklyn Cicero (Giancarlo Esposito) e inimigo n°1 dos projetos do amado da filha. A segunda personagem feninina é a femme fatalle Wow Platinum (Audrey Plaza), uma repórter interessei que utiliza dos seus atributos físicos para manipular, enganar e roubar os homens ricos. 

Dentro do arco principal da disputa de narrativas do que é melhor para as pessoas: uma cidade sustentável ou um mundo capitalista em ruínas, o enredo engendra ainda tons de filme noir e comédia pastelão. Em uma cena sobre a revelação do segredo de uma celebridade da música pop (Chloe Fineman), o desenrolar remete à cena do tribunal do filme O Mentiroso (1997), com Jim Carey. Sem contar as diversas citações de William Shakespeare e Marco Aurélio, como se o reinventar de frases fosse desnecessário diante de tantas palavras já ditas. 

Com tantos componentes a analisar em cena, a trama principal de Megalopolis sobre o arquiteto ganhador do prêmio Nobel, por conta da descoberta do Megalon, fica quase como um pano de fundo do que uma intriga latente. Ao invés de instigar a curiosidade, o longa nos aborrece com tanta espetacularização da riqueza, cenas exageradamente teatrais e de zombaria.

Megalopolis é um filme sobre um megalomaníaco utópico, dessa forma a cidade almejada não existe (e nunca existirá), mas o utopista luta pelo direito de imaginá-la. Algo que o protagonista diz em alto e bom tom na narrativa é que não importa se ele projetá-la um dia, só de as pessoas começarem a discutir sobre o processo é uma vitória. A reflexão soa piegas como boa parte da estética do filme e seus personagens. Olhando pelo prisma de deixar-se levar pela comicidade, é possível divertir-se aqui e ali durante a projeção. 

Ao tentar abraçar um mundo, isto é, todos às estéticas e referências, Megalopolis parece um filme mal acabado, com um pouco de beleza  — as cenas das estátuas desmoronando são ímpares  —, e sem lucidez. Aos 85 anos, Francis Ford Coppola permite-se confundir, enjoar e desagradar, já o público decide se vai aplaudir sua loucura ou escarnecer de sua ridicularização utópica.

Notícias

10 filmes tão bons que até sua preguiça vai curtir!

Tem dias em que estamos tão estressados que não...

‘Mortal Kombat II’ ganha data de estreia no streaming!

'Mortal Kombat II', sequência estrelada por Karl Urban no...
Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.