Com um mergulho nos primeiros anos da carreira da atriz francesa Maria Schneider, Meu Nome é Maria (Maria) traz um retrato incisivo sobre o impacto do cinema e da mídia na vida turbulenta da artista. Dirigido por Jessica Palud, a obra se concentra especialmente em sua estreia meteórica no romance erótico Último Tango em Paris (1972), dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Marlon Brando.
Interpretada com grande intensidade por Anamaria Vartolomei (O Acontecimento), Maria é retratada como uma jovem talentosa, porém vulnerável. Manipulada, portanto, cruelmente pelo diretor italiano, que a via como uma “folha de papel em branco” pronta para moldar sua própria visão artística. Já Marlon Brando é vivido de forma convicente e imponente por Matt Dillon.
O longa dedica uma parte significativa às filmagens de Último Tango em Paris, detalhando como Maria foi enganada tanto por Bertolucci quanto por Brando, especialmente na polêmica e infame cena de sodomização improvisada com manteiga. A recriação dessas filmagens é minuciosa, transmitindo ao espectador a tensão e o desconforto da atriz. A cineasta Jéssica Palud — que foi assistente de Bertolucci — usa esse espaço para mostrar a brutalidade por trás das câmeras: enquanto Brando era protegido e tratado como um astro, Maria era forçada a suportar longas jornadas de filmagem sem descanso.
Apesar do impacto dessa reconstituição, Meu Nome é Maria se arrasta no desenvolvimento posterior. A pressão da mídia, a falta de suporte emocional e a repressão de sua própria voz são retratadas de forma melodramática e cansativa. A narrativa mostra sua relação conflituosa com a família: expulsa de casa pela mãe aos 15 anos, busca o reconhecimento do pai, o renomado ator Daniel Gélin (interpretado por Yvan Attal), e a ausência de suporte emocional. Enquanto sua carreira se desestabiliza, a jovem atriz se refugia no uso de entorpecentes e em relacionamentos fugazes, incluindo um romance terno com Noor (Celeste Brunnquell), uma das poucas figuras afetuosas em sua vida.
A segunda metade do filme se perde em lugares-comuns da decadência de celebridades, tornando-se menos envolvente. A trilha sonora, que inclui a banda Talking Heads (Psycho Killer), e os figurinos de época ajudam a reforçar a ambientação, mas a produção aparenta limitações orçamentárias. O filme também falha em abordar a extensão real da carreira de Maria Schneider, que viveu por mais 31 anos e atuou em mais de 30 produções após Último Tango em Paris, porém o roteiro encerra sua narrativa ainda em 1980 de forma abrupta.
Embora Meu Nome é Maria tivesse potencial para um retrato mais amplo e profundo de Schneider, o longa se concentra quase exclusivamente no trauma, negligenciando outras facetas de sua vida. Um enredo focado apenas no período das filmagens poderia ter sido mais eficaz, transformando-se em uma espécie de bastidores de produção, intensificando sua força dramática. Ainda assim, é uma obra relevante, especialmente no contexto do movimento #MeToo, reforçando a importância de dar voz às mulheres que enfrentaram opressão na indústria cinematográfica.

Apesar de Maria Schneider ter sido ridicularizada e ignorada durante décadas, ela teve a coragem e nunca se calou, denunciando os abusos sofridos ainda nos anos 1970. Meu Nome é Maria é uma obra a ser vista para compreender a história de uma mulher que enfrentou a indiferença de uma indústria que, por muito tempo, protegeu seus algozes.
Lançado no Festival de Cinema de Cannes em 2024 e com passagem pelo Festival de Filme Internacional do Rio 2024, Meu Nome é Maria chegou às salas de cinema no dia 27 de março de 2025 em circuito limitado no Brasil. Distribuido pelo Imovision, o longa em breve estará disponível na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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