Uma James Bond feminina

Nestes tempos de representatividade, nos quais personagens icônicos ou marcas estabelecidas ganham novas roupagens, temos recebido uma enxurrada de mudanças étnicas e sexuais – a maioria, bem-vinda (mesmo que seus filmes não as acompanhem). Um dos itens mais pedidos é a versão feminina de James Bond. Bem, se vai acontecer ou não ninguém sabe – mas não precisa, pois já temos aqui um exemplar do agente secreto bem mais subversivo.

Desde sua edição norte-americana, dirigida por David Fincher em 2011, o universo criado pelo falecido autor Stieg Larsson se aproximava das formas de 007. Ou melhor, a uma versão “modernoza” dele. Banhada pela atemporal Immigrant Song (de Led Zeppelin), cantada nas cordas vocais de Karen O, o longa ganhava uma introdução de créditos xerocada dos filmes do espião criado por Ian Fleming. Era o recado de que Lisbeth Salander é a espiã dos novos tempos e seus casos – mesmo mais voltados ao suspense (e donos de temáticas hardcore) – repletos de potenciais intrigas internacionais.

Nada, no entanto, escalado ao nível do que temos aqui, agora com este quarto exemplar. Vale contextualizar a carreira da protagonista, pelas folhas e telas. Nos livros, Larsson tinha planos para uma série em 9 capítulos. Faleceu no terceiro – os três transpostos para o cinema, em versões suecas estreladas por Noomi Rapace (que fez seu nome graças à suntuosa performance). Já no ano seguinte, Fincher lançaria sua aprimorada versão da mesma história, com planos para a segunda e terceira partes. Que nunca viriam graças ao desempenho abaixo do esperado nas bilheterias.

No papel, a história de Salander continuou com David Lagercrantz, o autor designado para dar seguimento às aventuras da hacker. No cinema, a Sony também não estava pronta para desistir. O caminho optado, no entanto, foi o reboot (palavra de ordem na Hollywood atual – se algo não funcionou da forma que deveria, se reinicia). Assim, sai Fincher e Rooney Mara (mesmo com indicação ao Oscar debaixo do braço e tudo) e entram Fede Alvarez (A Morte do Demônio e O Homem nas Trevas) e Claire Foy (The Crown e O Primeiro Homem). Assim, novo autor, novo livro, nova protagonista e novo diretor se encontram harmoniosamente.

Bem, e como dito de início, Lisbeth Salander nunca foi tão James Bond quanto em A Garota na Teia de Aranha. Sim, a trama ainda carrega muitas tintas de subversão, e a protagonista exala seu ar de justiceira, personificando a essência de nossa lei Maria da Penha com unhas e dentes. Se a lei ganhasse vida e assumisse a forma feminina, ela seria Salander. E sim, ainda existe muitas ligações com seu passado, o que continua tornando Millenium uma trama pessoal para a protagonista. Mas aqui também adentramos o terreno da espionagem internacional como nunca anteriormente, com direito a agente especial dos EUA interferindo em território sueco (papel de Lakeith Stanfield), planos de armas nucleares roubados de um cientista (Stephen Merchant), organizações terroristas e uma vilã tipicamente bondiana (Sylvia Hoeks).

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Claire Foy não desaponta como Lisbeth, e consegue entregar uma atuação sólida – atingindo a nota certa, inclusive do sotaque sueco, sem soar forçado. De fato, sua Lisbeth ecoa a de Mara, e compramos logo de cara a substituição. O problema nem de perto é a performance dedicada da britânica. Também não se encontra na direção lúcida de Alvarez, abraçando com vontade seu trabalho mais ambicioso. O diretor uruguaio cria momentos estéticos belíssimos, imagens inspiradas, e uma edição dinâmica. A dupla encontra perfeita sintonia e entrega um novo filme digno da franquia.

O problema é a sanitarização pela qual o novo longa passa. A jogada da Sony para o reboot, foi tirar os 18 anos da censura do longa de Fincher, e jogar aqui – ao menos no Brasil – a censura 12 anos. O fato é perceptível ao repararmos num filme mais comportado, sem a mesma intensidade (especialmente sexual) dos anteriores – ou qualquer relação entre os personagens Lisbeth e Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnasson). Esta pegada menos impactante, embora notável, não cria barreira ou atrapalha o andamento da obra. É apenas a versão que não necessitará de cortes ao passar na TV aberta.

No elenco, destacam-se ainda Vicky Krieps (de Trama Fantasma) como a editora Erika Berger e Synnove Macody Lund (de Headhunters) no papel de uma oficial do alto escalão.

Millenium: A Garota na Teia de Aranha é um bom entretenimento, longe da significância da obra de Fincher ou das originais. Por outro lado, se mostra exatamente o que era necessário para uma longeva e mais acessível incursão a este universo. E na outra palavra de ordem em Hollywood: franquia. Foy e Alvarez estão aprovados para seguirem nesta trajetória.

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