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Crítica | ‘Monstro: A História de Ed Gein’ explora a imutabilidade da loucura humana


Ed Gein é uma das figuras mais populares da cultura estadunidense – e, por mais que o nome não soe familiar, com certeza sua influência é conhecida no cenário do entretenimento. Afinal, Gein ganhou notoriedade por suas condenáveis atitudes de exumar cadáveres e até mesmo utilizar partes humanas como souvenir, além de ter cometido dois assassinatos oficialmente confirmados. Suas ações influenciaram inúmeros realizadores cinematográficos, histórias de horror e personagens lendários, sendo responsável pela criação de Norman Bates, antagonista do clássico ‘Psicose’, Buffalo Bill, que rendeu a Anthony Hopkins o Oscar de Melhor Ator por ‘O Silêncio dos Inocentes’, e Leatherface, o psicótico serial killer de ‘O Massacre da Serra Elétrica’.

Agora, Ed é levado às telinhas da Netflix através da terceira temporada da antologia ‘Monstros’, produzida por Ryan Murphy e criada por seu colaborador de longa data Ian Brennan. A dupla, conhecida por sua parceria em inúmeras obras, incluindo ‘American Horror Story’, causou impacto significativo ao analisar as controversas figuras de Jeffrey Dahmer e dos Irmãos Menendez (ambas as iterações premiadas); o terceiro ciclo, que chegou à plataforma de streaming hoje, 3 de outubro, inicia o mês das bruxas com o pé direito, ainda que não consiga alcançar o nível artístico das incursões predecessoras – valendo-se do talento de Charlie Hunnam em sua metamórfica performance.



Ao longa de oito capítulos, o público é convidado a acompanhar a insana vida de Ed Gein, um tímido e peculiar rapaz subjugado pela mentalidade ultrapassada, autoritária e quase fundamentalista da mãe, Augusta (Laurie Metcalf). Com um apreço inexplicável pela dor e pela miséria humana, Ed nutre de uma paixão incalculável pela jovem Adeline Watkins (Suzanna Son) enquanto luta para ser o filho perfeito e acatar todas as exigências moralistas e religiosas de sua progenitora – conformando-se em uma complacência mandatória da qual não consegue escapar. Porém, após acidentalmente matar o irmão e com o falecimento da mãe, Ed é engolfado em um vórtice de insanidade que o compele a cometer atrocidades impensáveis e que o alcunharam de O Açougueiro de Plainfield.

Hunnam faz um trabalho incrível ao incorporar os trejeitos de Ed, singrando entre sua melancólica e doce personalidade e a criatura violenta e sanguinária que se esconde nas sombras – e que parece sair da jaula quando, em um ímpeto maníaco, ele vai até a cova da mãe e retirar seu cadáver apodrecido da terra, levando-a para casa e alucinando com sua presença iminente e opressora. Em contraposição, Metcalf rouba os holofotes ao viver Augusta, nos fazendo odiá-la desde os primeiros minutos em que aparece em tela e trazendo, inclusive, algumas breves homenagens à sua performance em ‘Pânico 2’. E, é claro, a construção da tóxica e destrutiva relação entre os dois automaticamente nos arremessa aos anos 60 e ao arco de Norman Bates no icônico suspense de Alfred Hitchcock.

Aliás, o lendário cineasta é peça importante da terceira temporada, sendo encarnado por Tom Hollander em uma interpretação fabulosa – e que constrói uma ponte metalinguística entre Ed Gein e a podridão da indústria hollywoodiana. Em seu núcleo, Hollander é acompanhado pela presença Joey Pollari como Anthony Perkins, ator que imortalizou o antagonista de ‘Psicose’ e que se torna alvo de uma “monstruosidade” autoimposta ao se ver como uma criatura marcada pelo “pecado da sodomia” – algo que, à época, era condenável em todas as instâncias. Ainda que algumas escolhas sejam improváveis demais, Murphy e Brennan conseguem construir esse paralelo de maneira inteligente e prática.

O elenco ainda conta com a firme presença de Vicky Krieps como a criminosa nazista Ilse Koch, que surge como um dos emblemas da fascinação de Ed pelo sofrimento humano – encarando as barbaridades cometidas pelos nazifascistas em plena II Guerra Mundial como uma extensão da naturalidade humana (algo que é mencionado por Hitchcock durante as gravações do longa-metragem). Para além dos atores e atrizes que compõe essa sádica saga, Brennan e o diretor Max Winkler trabalham lado a lado para não só se afastar da identidade das temporadas anteriores, mas compor o novo ciclo dentro de uma constante sensação de perigo, marcado pela exaltação do expressionismo cênico e pelo estudo da frágil psique humana com jogos de luz e sombra e arquétipos bem definidos.

O principal obstáculo enfrentado pela temporada é o roteiro: apesar da delineação contundente dos personagens e das complexas personalidades que povoam as telonas, alguns diálogos são fracos demais para serem levados a sério, apoiados sob uma estrutura descompensada de indiferentes “sacadas” mercadológicas e óbvias metáforas. Em compensação, as escolhas técnicas são quase irretocáveis, migrando do isolamento gelado da zona rural de Wisconsin aos labirínticos corredores dos estúdios de Hollywood para mostrar, de forma derradeira, a imutabilidade inconformada do ser humano.

Monstro: A História de Ed Gein é uma boa adição à popular antologia da Netflix, mas denota um certo cansaço para a saga – talvez momentâneo, talvez duradouro. Felizmente, Hunnam, Metcalf e o restante do elenco se mostram comprometidos o bastante para ofuscar os deslizes e nos conduzem nessa psicótica e sangrenta trama.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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