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Crítica | Morra, Amor – Maternidade e loucura colidem em drama sufocante com Jennifer Lawrence [Cannes 2025]


Em Morra, Amor (Die, My Love), Lynne Ramsay retorna à zona de desconforto onde seu cinema mais brilha. Conhecida por filmes que transformam o trauma em matéria estética, como Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) e Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017), a cineasta escocesa adapta com brutal intensidade o romance homônimo da argentina Ariana Harwicz, mergulhando no delírio febril de uma jovem à beira da implosão emocional. 

Com Jennifer Lawrence no papel de Grace, uma mulher afundada na depressão pós-parto, o filme constrói uma experiência sensorialmente sufocante — marcada por um som ambiente invadido por zumbidos de moscas e cercada por um cenário de lixo, decadência e isolamento. J. Law, grávida de seu segundo filho durante as filmagens, entrega uma performance em estado bruto, mas ainda assim não consegue alcançar a repugnância quase animalesca da narradora do livro. 

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Há algo de inevitavelmente glamoroso em sua presença — um obstáculo que Lynne Ramsay tenta contornar com violência estética e caos emocional. Grace não funciona mais no papel da mulher romântica: a maternidade, longe de iluminá-la, aciona nela um disjuntor sombrio, substituindo empatia por desejo, doçura por raiva, humanidade por uma lasciva autopercepção.

A relação conjugal com Jackson (Robert Pattinson, eficiente mas em segundo plano) se dilui num ciclo de atração e repulsa, e o sexo, antes constante, se torna uma moeda de troca, um pedido desesperado por controle. Grace exige prazer como quem exige oxigênio — ou como quem se recusa a se tornar apenas “mãe”. A performance de Lawrence é hipnótica, errática e sempre à beira do colapso. Em determinados momentos lembra sua interpretação desesperada no caótico e menospresado Mãe! (2017), de Darren Aronofsky

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A ambientação é bucólica, mas não acolhedora — uma casa herdada do tio do marido, que se matou ali mesmo, como uma maldição não dita. O que poderia ser um retiro rural se transforma em uma prisão psíquica, um purgatório com cheiro de leite azedo e moscas. Nesse cenário, a sogra (Sissy Spacek, em uma performance que combina fragilidade e ameaça) adiciona tensão à dinâmica doméstica, numa troca de farpas e carinhos. Spacek vagueia como um fantasma entre a negação e o colapso, cuidando do marido com demência (Nick Nolte), enquanto dorme armada e ri às gargalhadas no meio da noite.

LaKeith Stanfield surge como uma miragem de desejo, um vizinho quase onírico que representa a fantasia sexual e a fuga — uma presença pouco desenvolvida, mas simbólica, como o motoqueiro que vem do bosque carregando a possibilidade do outro, do escape, da dor transformada em febre erótica. Esses escapez do cotidiano trazem uma poética para uma narrativa que forja uma realidade bruta e destoa do resto do enredo em busca de uma evasão do cotidiano. 

Ramsay e sua co-roteirista Enda Walsh evitam a sutileza. Morra, Amor é um filme em estado de choque, onde a dor é amplificada em melodrama autoimolador. A trama não se curva à lógica terapêutica. Mesmo quando Grace é internada para tratar de um transtorno bipolar, a volta ao lar não traz cura — apenas mais consciência do abismo. Como em Babysitter, da canadense Monia Chokri, longa sobre um período nebuloso pós-parto, aqui há a sugestão de que a maternidade transforma a mulher em funcionária da sobrevivência familiar, mas enquanto Chokri lança um olhar mais cínico, Ramsay mergulha no pesadelo como única linguagem possível.

A ideia de redenção aqui é um insulto. Morra, Amor não apresenta resoluções para os problemas da sua protagonista, como se ela não fosse salvável, não porque não queira ser, mas porque está dilacerada por dentro — por um trauma talvez familiar, mas certamente não nomeado. Fiel ao espírito do romance original, Lynne Ramsay nos lembra que há dores que não se transformam em poesia nem em superação. Elas apenas existem, pulsantes, ensanguentadas, como a experiência de Grace em busca de si mesma, e talvez ainda mais viva por isso.

Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
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