Crítica | Mudança Mortal – Terror da Netflix baseado em história real pode te deixar PARANOICO

Quando voltamos nossos olhos para nós mesmos, acabamos por enxergar qualidades e defeitos que, no dia a dia, passam despercebidos. O mesmo acontece com o espaço em que vivemos, o qual, durante o isolamento social, por exemplo, passamos a reparar com mais atenção nos detalhes e nas partes que queremos modificar. Agora, imagina se as coisas não fossem tão belas assim, e, em vez de descobrir que a parede fica mais bonita de outra cor, você descobrisse que há alguém morando na sua casa sem você saber? É assim ‘Mudança Mortal’, novo filminho de terror da Netflix.

Natalie (Ashley Greene, a Alice de ‘Crepúsculo’) e Kevin Dadich (Shawn Ashmore, de ‘X-Men’) estão com problemas no casamento desde que ela o traiu na própria cama do casal. Como recomendação da terapeuta, os dois decidem mudar de ares e investir em uma nova casa, numa tentativa de resgatar a relação. O problema é que a casa, apesar de super bonita, foi cenário de um terrível feminicídio seguido de suicídio – razão pela qual os dois conseguem comprá-la a preço de banana. Porém, a nova vida acaba se revelando ainda pior, pois a nova casa traz como brinde uma presença que não deixará o casal seguir com a nova vida e passa a assombrá-los a todo instante.

Inspirado em uma história real e dedicado ao falecido Kevin Dadich, ‘Mudança Mortal’ tem uma premissa instigante, mas entrega pouco do que promete – para a tristeza dos fãs de terror, que se animarão em selecionar o longa para assistir. Com quase duas horas de duração, o filme foca mais no conflito conjugal e suas consequências emocionais para os protagonistas do que na construção do ambiente de terror ou da ameaça ao casal. A bem da verdade, a tal ameaça só é revelada faltando dezenove minutos para a conclusão do filme, e se resolve tão rapidamente, que deixa o espectador confuso, sem entender direito a motivação ou mesmo a resolução dessa ameaça.

Outro problema do roteiro de Dakota Gorman e Peter Winther (que também dirige o longa) é não conseguir alcançar o clima de suspense, tão necessário para a total imersão em um bom terror. Toda vez que o roteiro cria as situações de suposta tensão entre os personagens, a realização destas acaba falhando, o que aponta a imprecisão da direção de Peter Winther. É exemplo disso a cena da bolinha de tênis, que cai embaixo da cama e tinha tudo para ser construída de maneira pelo menos estimulante, mas a câmera desce para debaixo da cama após a personagem já estar lá e ver que não há nada ali. Quer dizer, como o espectador deve sentir medo, se não é mostrado nada ou se a câmera chega atrasada ao close?

‘Mudança Mortal’ tem uma premissa interessante, mas falha na execução. Ao menos, porém, faz o espectador ficar paranoico sobre a segurança de sua própria casa (argumento este que anda recorrente nas plataformas de streaming) – o que, para um fã de terror e thriller, já é alguma coisa. ‘Mudança Mortal’ é um suspensezinho mediano, mas não muito mais que isso.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.