Crítica | Musical ‘Anastasia’ é um deleite para os olhos e uma espetacular adaptação brasileira

Em 1997, a extinta 20th Century Fox dava vida a uma de suas produções mais subestimadas – a animação musical Anastasia. A trama acompanha o assassinato da família Romanov (a última monarquia russa) pelos rebeldes bolcheviques, cuja principal intenção era depor o domínio czarista e permitir que o povo ascendesse ao governo do país. Entretanto, a jovem personagem titular sobreviveu ao massacre, mas perdeu a memória – e, então, parte em uma jornada para se redescobrir e se reunir com o último membro da família que ainda está vivo. Em 2017, a clássica história foi levada aos palcos da Broadway e, cinco anos mais tarde, a adaptação teatral chegou ao Brasil da melhor maneira possível – e, inclusive, superando o original em diversos aspectos.

Comandado pela certeira mão da diretora associada Carline Brouwer, a versão brasileira da produção é um espetáculo visual, sonoro e performativo, reunindo os clássicos elementos do gênero em uma potente e envolvente narrativa ambientada na Europa do início do século XX. Aqui, Giovanna Rangel, que já emprestou suas habilidades para obras como ‘A Bela Adormecida’ e ‘Coração Canção’, faz sua impecável estreia como protagonista ao interpretar Anya, alter-ego que adota após sofrer amnésia em decorrência dos ataques bolcheviques. A princesa perdida da dinastia Romanov, no primeiro ato, é forçada a trabalhar por um irrisório salário para sobreviver ao frio e à fome – até cruzar caminho com um golpista chamado Dmitri (Rodrigo Garcia) e um ex-aristocrata chamado Vlad (Tiago Abravanel em seu glorioso retorno aos palcos).

Juntos, o trio arquiteta um plano de transformar Anya na princesa, levá-la a Paris para se reunir com a Imperatriz Maria Feodorovna (Edna D’Oliveira) e receber uma recompensa que os permitirá viver a vida que sempre quiseram – tudo sem saberem que Anya é, de fato, Anastasia. Entretanto, nem tudo sai como o planejado: temos o Camarada Gleb (Luciano Andrey), um dos militares responsáveis por manter a ordem no recém-criado Leningrado, que acata os rumores de que a personagem de Rangel seja a princesa Romanov e que mergulha em uma missão para encontrá-la e terminar o trabalho iniciado pelo falecido pai; e, é claro, a Imperatriz, amargurada pelas várias jovens que mentiram sobre serem Anastasia, não acredita que a neta voltará e se confina em seu apartamento em Paris ao lado da dama de companhia Lily (Carol Costa).

A versão brasileira faz um ótimo trabalho ao trazer todos os elementos da peça original estadunidense, mas sem deixar de colocar aspectos únicos que nos fisgam desde o primeiro momento. O ato inicial, que se inicia com uma irretocável sequência no palácio, é movido por uma tétrica e apaixonante rendição de “Foi No Mês de Dezembro”, mergulhada em um antêmico e nostálgico conto de fadas, logo dando espaço à “Última Dança dos Romanovs” – cuja coreografia, a encargo de Denise Holland Bethke, é emocionante e impecável do começo ao fim, aliando-se a uma cenografia que causa arrepios até nos mais céticos.

Se a cena de abertura dá o tom do musical, cabe ao elenco conseguir manter-se sólido para nos guiar por uma complexa trama recheada de reviravoltas, mentiras e sonhos perdidos. Não é surpresa que, considerando a competente equipe artística e técnica por trás da produção, o resultado supere as expectativas: Rangel brilha em seus solos e demonstra uma afetividade simbólica com o público, transmitindo uma singularidade performática que explode em aplausos toda vez que profere a última nota das músicas; Garcia, nutrindo de uma química espetacular com sua companheira de cena, permite que Dmitri ganhe voz em um belíssimo e bem delineado arco, reiterando sua considerável carreira no teatro; Abravanel, um veterano dos musicais, faz um trabalho primoroso como Vlad, roubando os holofotes com sua interpretação jocosa e vigorante.

Mas não é apenas o trio protagonista que nos cativa: do primeiro momento em que Costa aparece como Lily, sabemos que iremos nos divertir – e, no momento em que ela solta a voz nos primeiros versos do dançante hino em memória à terra natal, nossas expectativas se concretizam em uma explosiva e inesquecível atuação. A atriz sabe o que faz e sabe como encantar os espectadores, seja nessa mistura de jazz e folk russo, seja no cândido dueto valsado ao lado de Abravanel – ambos misturando drama e comédia na dose certa.

São vários os elementos imediatamente reconhecíveis que se espalham pela produção: em “Paris Rouba o Seu Coração”, Brouwer e Bethke unem forças para homenagear o lendário Bob Fosse, mas sem abandonar incursões que discorrem sobre a arte russa – como a incorporação da kalinka à coreografia e às movimentações de palco, ou com a construção metalinguística de ‘O Lago dos Cisnes’ em uma arrepiante rendição. E, por mais que a peça não seja livre de momentâneos deslizes, a cautelosa e intrincada engrenagem consegue ofuscar quaisquer obstáculos, mantendo-se viva na nossa mente mesmo horas depois dos agradecimentos.

Anastasia é uma incrível adaptação musical brasileira que não deve absolutamente nada à obra original, conseguindo honrá-la por completo e, como já mencionado, superando-a em vários momentos – principalmente no tocante às performances. A narcótica produção é uma joia do cenário do entretenimento atual e merece ser apreciada em todos os seus detalhes.

Lembrando que o musical continua em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo.

Notícias

‘Sobrenatural 6: Agora Entre Nós’ ultrapassa US$ 150 milhões nas bilheterias mundiais

Sucesso! A sequência 'Sobrenatural: Agora Entre Nós' conseguiu ultrapassar...

‘Barbie 2’ vai acontecer? Produtora da Mattel Studios responde!

Durante sua passagem pelo Toronto Film Festival, Robbie Brenner,...

David Corenswet vive jogador de futebol americano AZARÃO no trailer de ‘Mr. Irrelevant’

A Paramount Pictures divulgou o trailer oficial de 'Mr. Irrelevant', drama...

10 DICAS DE SÉRIES para transformar a noite de casal em um programão

Ter sempre anotado ótimas dicas de séries para assistir...

‘Tudo em Família’ ganhará SEQUÊNCIA com Claire Danes e Rachel McAdams

A Searchlight Pictures anunciou recentemente que a clássica comédia dramática...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.