Crítica Netflix | 13 Reasons Why: Arrastada e desnecessária, a pior temporada de todas

Crítica Netflix | 13 Reasons Why: Arrastada e desnecessária, a pior temporada de todas

Nota:


Em 2017, a Netflix chocou as audiências ao redor do mundo por trazer um relato cru sobre as consequências que o bullying pode acarretar no meio estudantil. Abordando a depressão e o suicídio de maneira gráfica, a plataforma de streaming ultrapassou os limites do puro entretenimento, se aventurando em uma narrativa polêmica, extravagante por sua franqueza e extremamente essencial, em um mundo que está cada vez mais emocionalmente doente. Controversa e envolvente, 13 Reasons Why estreou cheia de motivos para ser assistida e debatida, dividiu o mundo entre os que a acharam necessária e os que a acharam uma espécie de gatilho para novas tragédias, e trouxe um dos finais mais dolorosos de se assistir na telas. Dois anos se passaram desde a fatídica e solitária cena de Hannah Baker (Katherine Langford) na banheira e cá estamos diante de um fracasso lastimável, de uma produção que perdeu a oportunidade de se imortalizar.

A problemática de se fazer uma primeira temporada tão bem construída é justamente a série de expectativas que orbitam ao redor do seu futuro nos ciclos seguintes. Se gerar o frenesi inicial é um grande desafio, mantê-lo é ainda maior. E sustentar uma trama latente e instigante, implica também em arquitetar uma história que faz sentido ser contada. Na terceira temporada de 13 Reasons Why, somos forçados até mesmo a rever nossa percepção sobre seu segundo ano, que ainda que tenha sido fraco, fez sentido. Com um roteiro mal escrito e preguiçoso, a popular série chega ao fundo do poço com uma trajetória decadente e perde seu viés questionador e reflexivo para dar espaço a um dramalhão excessivamente cansativo. Over em quase todos os aspectos, a nova temporada é um desgosto para os amantes do ciclo inaugural, que se viram hipnotizados pelas crescentes fitas narradas por Hannah, que dilaceraram escamas cada vez mais profundas de uma vida submetida a uma sucessão de rejeições e abusos.

Prolixa, lenta e desgastada, a narrativa agora é desnecessária, não possui mais um mistério a ser revelado, tão pouco um debate a ser abordado. Tentando repetir sua própria fórmula de sucesso exibida em 2017, a série co-produzida por Selena Gomez perde seu foco e seus próprios personagens, que são incapazes de convencer a audiência de suas retóricas e perdem a aproximação e identificação que outrora nutriram no público. Se distanciando absolutamente do seu saudoso passado, a produção tenta esticar a corda de sua história para se manter contemporânea e discutível, mas perece como uma fracassada tentativa comercial, se desviando de seu propósito original, que de fato era trazer para o centro da sociedade mundial uma franca conversa sobre suicídio e depressão.

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Tristemente, a série tenta fazer a tumultuada morte de Bryce (Justin Prentice) seu mote no terceiro ciclo, à medida que desconstrói seu “vilão” de maneira um tanto irracional e até mesmo irresponsável. Desconsiderando a genuína realidade de um criminoso sexual – que precisa de anos de tratamento para transformar sua corrupta mentalidade em algo são e saudável, a produção acaba fazendo um desserviço à trágica história da protagonista original, se posicionando – em alguns momentos – como incoerente e confusa. Mais conflituosa que as próprias mentiras ditas por seus personagens, 13 Reasons Why deixou seus 13 motivos do lado de fora da narrativa, entregando episódios de uma hora de duração que custam a passar.

Essa espiral alcança um nível ainda mais doloroso ao tentar preencher o espaço vago deixado por Katherine Langford com uma personagem intragável, que reveza seu tempo de tela entre a estupidez de se julgar acima de todos os demais personagens e uma falta de feeling investigativo tóxica, que compromete o desenrolar da trama, tornando-a ainda mais maçante e arrastada. Se posicionando como uma espécie de narradora onisciente, Ani (Grace Saif) redefine o significado do famoso eye rolling, levando a audiência a novos graus de exaustão. Dentro deste contexto em frangalhos, a própria trama – que já foi pautada por seu equilíbrio e responsabilidade dramática – se transforma em uma novela mexicana nada convincente, melodramática e totalmente saturada.

Ao final dos dolorosos 13 episódios, 13 Reasons Why se transforma na lembrança de um dia ter sido pontual e importante, com seu glorioso passado esfarelando pelos dedos, sendo substituído pelo amargor de uma produção que poderia ter sido, de fato, uma minissérie de temporada única. Se perdendo em sua própria popularidade, a série original da Netflix perde o gosto, a mão e corre o risco de perder seu próprio público. Com uma extensão de capítulos que poderiam ser resumidos rapidamente, ela perdeu a oportunidade de se imortalizar no tempo, caminhando para um fim quase tão trágico quanto o traumático e angustiante desfecho de Hannah.



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