Crítica Netflix | The Old Guard – Charlize Theron estrela filme de super-heróis no estilo ‘Atômica’



Ciclos intermináveis e vidas que se repetem em meio à perdas irreparáveis. A imortalidade tem um preço muito alto e no universo dos quadrinhos de The Old Guard, fazer parte da rara Velha Guarda da humanidade traz em si também a dolorosa marca de ter que re-assistir a um loop infindável de problemas – aparentemente – sem solução. E as marcas de séculos de tragédias e dores humanas jamais cicatrizadas são o que ajudam a moldar a essência da nova adaptação cinematográfica desenvolvida pela Netflix e estrelada pela vencedora do Oscar, Charlize Theron. Trazendo uma nova franquia de anti-heróis que vai na contramão do arquétipo heróico imaculado da Marvel, o novo longa de ação mistura a acidez e a agilidade de Atômica, trazendo um toque doce da sensibilidade quase pueril, em meio à mortes gráficas, sanguinolência e uma trama que vai conquistar (e muito!) os fãs do gênero.

Resgatando a mesma premissa do material fonte com precisão, o longa é uma referência direta à aclamada narrativa original, trazendo aspectos do contexto contemporâneo na construção de sua trama – que acompanha quatro mercenários imortais que são pegos em uma emboscada feita por uma enorme corporação que visa extrair a essência da sua imortalidade a qualquer custo. Com o roteiro assinado pelo próprio Greg Rucka, um dos co-criadores da HQ, a produção possui um timing realista ao projetar os holofotes na sagaz indústria farmacêutica, fazendo duras críticas a ela, à medida que ainda explora outros aspectos sócios políticos globais de forma mais efêmera e intuitiva, a fim de construir o background dos protagonistas.

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Com elementos que transformam o longa em um excelente filme de ação, The Old Guard sabe usar o seu tempo de tela para consolidar as subtramas de seus personagens com leveza e dinamismo, moldando um filme de origem que cumpre o seu papel em diversas frentes: Sabe introduzir os protagonistas, busca se identificar com a audiência por meio de uma conectividade emocional e desenvolve suas cenas de ação com precisão e boas coreografias. Trazendo Theron como a regente da trama, a produção usa e abusa da poderosa presença de tela que a atriz possui, fazendo-a navegar entre a fragilidade emotiva que já vimos em vários de seus dramas, à medida que extrai a rigidez e dureza que a também estrela de ação é capaz de entregar em seus filmes, assim como o fez em Mad Max: Estrada da Fúria e Atômica.

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Contrabalanceado a violência gráfica das mortes incessantes que permeiam as duas horas de filme com a sensibilidade humana, a diretora Gina Prince-Bythewood sabe explorar o fator emocional, que reside justamente na imortalidade de todas as coisas: Das lutas, das dores, do sofrimento, das mortes e das perdas inesgotáveis que os protagonistas Andy (Charlize Theron), Booker (Matthias Schoenaerts), Nicky (Luca Marinelli) e Joe (Marwan Kenzari) enfrentaram ao longo da eternidade. E fazendo da jovem personagem Nile – vivida por KiKi Layne – o fio condutor das explicações e elucidações dos mistérios que norteiam todo o universo de The Old Guard, a cineasta torna a produção uma experiência essencialmente representativa, girl power e empoderada por mulheres diferentes e de raças distintas, que assumem a liderança em um contexto comumente masculino.

Apresentando sua própria versão de super-heróis distante da censura PG-13, The Old Guard perde um pouco por deixar de fora a estética noir que fez dos quadrinhos um espetáculo visual aclamado e premiado. Desconstruindo sua beleza em um filme que busca mais se ater ao gênero de ação, a adaptação segue mais para um caminho generalizado em sua qualidade de design de produção. Embora tenha uma direção consistente que se destaque nas belas cenas de luta corpo-a-corpo, Prince-Bythewood ainda mira na audiência mais global, despe o longa de um dos seus aspectos mais belos, certificando o desejo da Netflix de transformar Charlize Theron e seu novo filme em uma franquia capaz de disputar lado a lado ao MCU e ao universo compartilhado da DC, ainda que fuja às regras de censura empregadas por ambas as concorrentes.

Trazendo flashbacks do passado que ainda abrem precedentes para prequels e outros desdobramentos narrativos bem ricos, o longa de ação é uma experiência cinematográfica gratificante para a audiência. Com uma trama expansiva que inverte os papéis de seus personagens, traz pequenos plot twists e de quebra ainda apresenta o indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor como mais um outro elo de conexão a longo prazo, The Old Guard é o novo filme da gigante do streaming que chega para preencher um vazio deixado pelo fechamento dos cinemas ao redor do mundo e anuncia a chegada da Netflix ao hall das grande adaptações dos quadrinhos cinematográficas.

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Rafaela Gomes

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