Quem viveu a era de ouro da música brasileira, viveu – e viveu bem. A mistura entre as influências externas com os sons produzidos em terras brasileiras fez da nossa música um som único, sentido, cantado e produzido pelos talentos locais. Mas nesse cenário de efervescência em busca de um produto cem por cento autêntico, alguém tinha que ficar do outro lado, filtrando, direcionando e, acima de tudo, criticando o que era produzido. E nessa outra ponta estava Ezequiel Neves, mais conhecido como Zeca Jagger, um dos maiores nomes da música brasileira e cuja história foi compilada no documentário ‘Ninguém Pode Provar Nada’, exibido durante o 18º In-Edit Brasil e que em breve, esperamos, entre em exibição no Brasil.

Logo dos primeiros minutos dos pouco mais de cem, encaramos o biografado em uma das muitas entrevistas dadas ao diretor Rodrigo Pinto. Nela, Ezequiel Neves, já envelhecido e sem papas na língua, anuncia que vai falar o que tiver que falar, pois, afinal, ninguém pode provar nada. Neste momento inicial, o espectador já se depara com uma figura tão carismática quanto misteriosa: há muito mais ali, por detrás daquele par de óculos e cabelo esbranquiçado do que estamos vendo. Essa promessa de mistério é o mote que irá guiar a narrativa do documentário.
Assim conhecemos o jovem mimado Ezequiel Neves, um irrequieto belorizontino insatisfeito na própria terra, que, sem saber o que fazer da vida, decide se mudar para o Rio de Janeiro atrás do fervo. Na capital carioca. Ezequiel busca emprego nas revistas do momento e consegue trabalho na Rolling Stones, onde começa a escrever sobre música. Antenado em tudo que acontecia no mundo, rapidamente Ezequiel passa a se tornar uma referência na área, de modo a criar tendências e anunciar o que prestava ou não no cenário musical. Suas críticas e matérias, sempre acidíssimas, não poupava ninguém – apenas os Rolling Stones. É assim que Ezequiel Neves abandona seu nome de batismo e se torna Zeca Jagger.
A partir dessa alcunha, Zeca Jagger incorpora uma persona indomável, indelével, devorador de todo tipo de carne. Entre os louros do Woodstock à ascensão do rock n roll, Zeca descreveu tão bem o espírito dessas gerações que, não obstante, também criou ficções convincentes sobre aquilo que gostaria de ter vivido. Em outras palavras: nem tudo era verdade, e alguns de seus textos eram verdadeiras fake news, sobre discos que não existiam, viagens nunca realizadas e entrevistas jamais feitas. Nesse ponto, o documentário ganha tons cômicos com uma tradução bem tosca de um português em IA cheio de sotaque. Hilário!

O roteiro é bem claro em seu posicionamento: primeiro, apresenta o biografado no tempo atual, bem desaforado, pra conquistar a atenção do público; depois, mergulhamos no passado comum quase conservador do jovem em Triste Horizonte, como chamava; rapidamente deixamos isso de lado para o fervor sedutor da capital carioca e seus grupinhos artísticos na praia do Leblon, onde o cenário se desenhava; com um personagem tão atraente, em poucos minutos o espectador é hipnotizado pela sua história e sua forma de se colocar no mundo, para, no fim, o mesmo roteiro dar uma rasteira na gente e entregar uma outra faceta do biografado, trazida principalmente por Lucinha, mãe de Cazuza, grande amigo de Zeca Jagger. Nessa balança do julgamento, cabe ao espectador decidir quem é Ezequiel Neves.
Impressiona demais a quantidade de material de arquivo encontrada por Rodrigo Pinto, com muitas, muitas fotos, cenas de filme e diversos depoimentos que ajudam a preencher o mistério do caráter de Zeca Jagger. Afinal, quem foi ele? Entre desaforos e histórias babilônicas, Zeca foi responsável pela consolidação de inúmeras bandas no rock brasileiro, como Rita Lee e Barão Vermelho, e o documentário ‘Ninguém Pode Provar Nada’ faz um delicioso e irresistível retrato desse cara insuportável, cujo magnetismo hipnotizou muitos artistas e moldou o comportamento da cena urbana do eixo sudeste durante décadas.
‘Ninguém Pode Provar Nada’ é pura onda da última tragada do feroz Ezequiel Neves. Uma fake news deliciosamente corrosiva entre realidade, ficção e imaginação.



