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Crítica | ‘No Ritmo da Vida’ é um potente e conflitante drama LGBTQIA+ intergeracional


Quando pensamos em dramas LGBTQIA+, normalmente a narrativa principal gira em torno de um membro da comunidade que luta contra o preconceito que sofre numa base diária – e que, muitas vezes, se rende ao melodrama. Considerando que há alguns anos já lidamos com esse tipo de temática, faz-se necessário a busca de outras incursões que fujam do convencionalismo e que apresentem histórias tão relacionáveis quanto a tragédia burlesca. E é nisso que o recente No Ritmo da Vida, que estreou nos últimos dias nos cinemas nacionais, procura focar.

Dirigido, escrito e produzido por Phil Connell (que faz sua estreia com os longas-metragens), a obra teve seu lançamento oficial em festivais independentes antes de ganhar uma exibição maior. A trama é centrada em Russell (Thomas Dupleesie), um jovem rapaz gay que, depois de um bruto término, resolver viajar para o pequeno Condado de Prince Edward e visitar sua avó, Margaret (interpretada pela lendária Cloris Leachman), que está debilitada, mas se recusa a ter ajuda de pessoas que não façam parte da família. Lá, Russell começa a analisar sua vida, sua paixão pela arte drag e a conflituosa relação que carrega com o desejo de ser ator, além de perceber que a avó precisa dele mais do que nunca. É nesse quesito que a estrutura do filme se mostra sólida o bastante para nos carregar durante uma hora e meia (um tempo ótimo para entregar todas as mensagens que deseja).



Connell trabalhara com curtas-metragens no passado, mas não foi até então que pôde explorar sua visão artística por completo. No final das contas, o público percebe inúmeras fórmulas do gênero sendo utilizadas – exigindo que o realizador foque em elementos que sabe que irão nos conquistar, como o elenco. Dupleesie faz um ótimo trabalho como o protagonista, adotando uma personalidade que foge do “maniqueísmo super-heroico” que tanto vemos no escopo mainstream e deixando claro que tem problemas pessoais que precisa resolver, incluindo seu temperamento genioso e uma tendência em esconder quem é das outras pessoas. Afinal, quando está se apresentando dentro de seu alter-ego, ele se transforma em uma pessoa poderosa e que não tem medo de falar o que pensa.

Mas é Leachman quem rouba o holofote ao se render com paixão irretocável à persona de Margaret: apesar de certos fantasmas do passado não serem explorados como deveriam, descobrimos que ela teve um tóxico relacionamento com o falecido marido, que foi arrastado para o mundo do álcool e de jogou da varanda de um hotel em um acesso psicótico; além disso, tinha o sonho de ser uma patinadora artística, que teve de abandonar em virtude da guerra que acometeu sua juventude e de “responsabilidades sociais” que enterraram suas ambições. Leachman, uma das atrizes de maior nome na história do entretenimento, prova com o longa-metragem que, mesmo com 94 anos, é capaz de entregar um tour-de-force aplaudível e invejável (deixando-nos no começo do ano passado com uma marca sensível e tocante).

Os deslizes da produção são pontuais e se restringem a elementos técnicos, como o exagero niilista do roteiro, cujos diálogos por vezes esbarram no melodrama metafórico, e a costumeira direção de gênero. Entretanto, é notável como Connell, quando possível, faz um ótimo uso de simetria para intercalar os conflitos intergeracionais dos protagonistas, sem diminuir suas dores e utilizando-os como comparativos entre momentos muito diferentes da história. O mais interessante é o fato de os obstáculos não estarem na superfície da falta de aceitação pela família, e sim em questões tangíveis sobre trabalho, carreira e perspectiva de vida – ora, Russell é uma máquina performativa e não só faz dublagens de clássicas músicas, como as incorpora em exibições teatrais que o transformam no centro do espetáculo. As cenas não são apenas jogadas para compor um fragmentado produto, mas partem de um jogo de ação e reação que culmina numa resolução poética e memorialística.

Se nos meses anteriores tivemos a tentativa fracassada de ‘Everybody’s Talking About Jamie’ em trazer a arte drag para o mainstream, No Ritmo da Vida alcança sucesso considerável sem cair no pedantismo e arquitetando arcos críveis e apaixonantes. A jornada dos personagens atravessa um oceano de sentimentos e de segredos que virão à tona, eventualmente, e se cruza em um limiar de passado, presente e futuro – com o auxílio de uma paleta de cores que se afasta do fabulesco e aposta fichar num realismo dramático funcional.

É bem provável que o filme passe longe de seu radar, porém, se tiver uma chance de assistir a ele nos cinemas, sugiro que vá: a honestidade da narrativa é um de seus bens mais preciosos e merece ser apreciada até mesmo dentro de suas limitações – e garanto que, quando sair da sala, vai querer correr atrás de seus sonhos como se fosse seu último dia de vida.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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