Quase toda estatística mostra que os principais abusos, sejam eles quais forem, na maioria das vezes acontece dentro de casa. Apesar de os perigos estarem no mundo externo, é dentro do núcleo familiar, onde deveria ser um lugar acolhedor para as crianças, que acontecem a maior parte das violências sofridas por elas. E é justamente aí onde reside o dilema: como denunciar, como sobreviver a uma situação de abuso quando esta ocorre com uma pessoa que deveria ser confiável? Essa dificuldade fica ainda mais fragilizada quando uma das partes é uma criança, cujos direitos deveriam ser protegidos pelos mais velhos do lar. Assim começa o filme belga ‘Nós Acreditamos em Vocês’, estreia da semana nos cinemas brasileiros.

Em um ponto de ônibus, uma mãe luta para convencer seu filho a embarcar no ônibus que acaba de chegar. É Alice (Myriem Akheddiou), que, de uma maneira bem ríspida, briga publicamente com seu filho, Etienne (Ulysse Goffin), pois precisam chegar a uma audiência. Então, conhecemos o drama da família: Alice se separara do marido, Sr. Goossens (Laurent Capelluto) um tempo atrás, e ambos viviam em guarda compartilhada dos filhos Etienne e Lila (Adèle Pinckaers) até que, um dia, Etienne volta estranho para casa, e Alice descobre que seu filho mais novo, de apenas doze anos, sofrera um abuso sexual dentro da casa do pai. A partir daí, as crianças passam a rejeitar a presença do pai, que chega agora com um novo pedido de guarda. Agora, diante de uma juíza e das advogadas, tanto os adultos quanto as crianças deverão contar suas versões da história.
Escrito e dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, ‘Nós Acreditamos em Vocês’ é um filme de orçamento curto mas que encontra soluções criativas para expor um argumento potente cujo objetivo é fazer o público refletir, tirar as próprias conclusões e, por conseguinte, julgar os personagens e chegar sozinho a seu próprio veredito.
Para tal, o roteiro vai apresentando os elementos do enredo aos poucos, à medida que os personagens envolvidos vão se expondo na audiência. Começando pelas advogadas, primeiro a de acusação e depois a da defesa, cada uma expõe o ponto de vista de seus clientes (o pai e a mãe) sobre o afastamento dos filhos; por se tratar de uma linguagem mais burocrática, os diretores optaram por uma solução criativa: em vez de filmar as advogadas falando, nessa cena apenas ouvimos as personagens falando, e a câmera foca no rosto da mãe; dessa forma, à medida em que os absurdos vão sendo pronunciados, mais do que ver o rosto da advogada falando, mais interessa ao filme ver as reações dessa mãe ao ouvir os argumentos. Uma solução bem inteligente dos diretores para garantir a imersão no drama dessa personagem.

Por outro lado, embora num primeiro momento esse formato traga algum frescor, em poucos minutos também dá uma cansada, pois percebemos que a estrutura narrativa será assim e que, portanto, não haverá variação de cena: quase todas se passam dentro do prédio onde a audiência ocorre e quase sempre com a câmera com foco na protagonista, com pouquíssima variação. Parece aqueles trabalhos de escola onde a turma se divide entre acusação e defesa e devem convencer o juiz-professor sobre um caso.
‘Nós Acreditamos em Vocês’ é criativo e propõe a observância sobre a fragilidade de se garantir os direitos das crianças quando os eventos que os fere ocorre dentro de uma família, e quem deve julgar o caso é um estranho a esse núcleo. Como toda violência gera trauma, o filme não se furta em demonstrar a complexidade que se torna a vida do pequeno Etienne, causando repulsa e indignação no espectador. Não parece, mas ‘Nós Acreditamos em Vocês’ vai fazer você refletir.



