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Crítica | Nosferatu – Clássico do Horror Expressionista Alemão Ganha Versão Brasileira [Festival do Rio 2025]


Mais de cem anos já se passaram desde a primeira exibição do filme ‘Nosferatu’ (1922), do cineasta F. W. Murnau. Na época, o longa aterrorizou cinéfilos do mundo todo por conta do misto sensual e repugnante do vampiro que atacava a donzela indefesa numa cidade infestada de ratos. De lá para cá, muitas versões foram realizadas por cineastas do mundo todo, até hoje impactados pela potência narrativa dessa história. E, no mesmo ano em que Robert Eggers lança sua leitura desse clássico, também o Brasil exibe uma versão nacional de ‘Nosferatu’, que teve suas primeiras exibições no Festival de Brasília, no CineBH, no Festival do Rio e na próxima semana comporá a programação da Mostra de São Paulo.

Em uma cidade costeira brasileira, uma figura sombria desembarca em solo nacional. É Nosferatu (Rodrigo Sanches), o pai dos vampiros que chega ao Brasil cheio de dúvidas, a perambular pelas ruas escuras enquanto foge de Van Helsing, o famoso caçador de vampiros. Enquanto busca sentido, ele procura por uma atriz e esbarra em um teatro, onde personagens tentam igualmente encontrar sentido naquilo que fazem. Nosferatu, assim, precisa encarar a dor e o tormento da eternidade.



A versão brasileira do ‘Nosferatu’ reapresenta o clássico do expressionismo alemão para um público que possivelmente não viu o original, uma vez que este tem mais de cem anos de idade (o filme, o vampiro tem mais). Para tal, vale-se da estética preto e branco para realçar as expressões de seus personagens em um contraste constante de emoções. Uma das cenas mais impactantes é justamente a de abertura, quando um navio cargueiro (que conduz o protagonista ao território nacional) cruza a tela na escuridão, com o título grafado em tipologia de grafitti e em vermelho, anunciando-se num misto de arrepio e êxtase.

A fotografia de Cauê Angeli é sem dúvida o principal destaque, seja pela já mencionada abertura, seja pelos inesperados close-up que destacam as expressões dos personagens, reforçando o recurso teatral, uma vez que estamos falando de uma trupe de artistas que ensaiam uma apresentação por vir enquanto a produção bebe na fonte na qual Murnau se destacou. Desse contraste, favorece-se a caracterização de Rodrigo como um Nosferatu careca, arregalado, intenso – completamente diferente de como o ator se apresenta na realidade, o que demonstra o bom trabalho da caracterização.

Cristiano Burlan é um dos principais nomes do gênero do terror no Brasil, e nota-se que ‘Nosferatu’ é um projeto querido do cineasta: no projeto, Burlan é responsável pela direção, pelo roteiro (com Fernanda Farias, Emily Horokawa e Rodrigo Sanches), pela produção (com Natália Reis e Rodrigo Sanches), pela montagem (junto com Lincoln Péricles e Renato Maia). Dado o evidente baixo orçamento da produção e o mega envolvimento de Burlan e Sanches, talvez o roteiro tenha ficado especialmente coerente dentro do universo criativo de ambos, mas não tanto para o entretenimento do espectador. A história, recheada de referências e metáforas (que vão desde o teatro grego e Ofélia à homenagens cinematográficas como ao filme ‘A Família do Barulho’, ao colocar Helena Ignez cuspindo sangue tal qual) é conduzida por uma linha de tênue compreensão, que parece querer mais criar uma sensação vampírica do que contar uma história linear e compreensível.

Nosferatu’ é um filme experimental, sem dúvidas, e que claramente permitiu que dois veteranos do cinema – Helena Ignez e Jean-Claude Bernadet (em seu último filme) – se divertissem num filme de horror. Um filme que encontra seu espaço nos festivais de cinema do país e que demonstra a potencialidade criativa de uma trupe que se junta para fazer cinema.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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