Crítica | ‘Sirât’ explora a melancolia e a complacência de uma realidade brutal [Mostra SP]

Filme exibido na 49ª Mostra de São Paulo.

No meio do deserto marroquino, uma rave acontece. Reunidos em meio a grandes caixas de som que ecoam batidas de música eletrônica, os participantes dançam sem parar, escapando da realidade em meio a um microcosmos que parece alheio ao mundo ao redor. Porém, o que deveria ser um momento de fuga é interrompido pela chegada de Luis (Sergi López), um pai que está procurando a filha que saiu de casa há cinco meses rumo às raves e não deu mais notícias. Acompanhado do filho mais novo, Esteban (Bruno Núñez Arjona), Luis conhece um grupo de ravers que está a caminho de outra festa, resolvendo ir até lá para continuar sua busca.

Porém, as coisas se complicam quando um grupo de militares armados até os dentes chega ao local e evacua os turistas, afirmando que o território agora será ocupado pelas forças do exército em meio aos conflitos que se espalham por todo o país e o mundo. O grupo de ravers, que conta com Bigui (Richard Bellamy), Stef (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Tonin (Tonin Janvier) e Jade (Jade Oukid), consegue escapar do cerco que guia as pessoas para longe do local, mas não percebe que Luis e Esteban os estão seguindo. A contragosto de alguns, a dupla decide segui-los até a próxima rave, embarcando em uma árdua jornada tour-de-force pelas escaldantes paisagens marroquinas e pelos demônios que permeiam terras tão inóspitas.

Vencer do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o longa-metragem é uma poderosa análise que singra entre a particularidade e a universalidade, explorando o barril de pólvora em que o planeta se encontra em meio a extremismos políticos, constantes disputas pelo poder e uma derradeira distopia que está cada vez mais perto de acontecer. Contrariando nossas expectativas, não há quaisquer traços de misantropia no filme, e sim um retrato realista-pessimista de algo que pode vir a acontecer na pior das hipóteses – uma III Guerra Mundial de proporções astronômicas cuja única fuga está nas drogas alucinógenas e no escapismo hedonista da música.

Sirât, em árabe, significa caminho ou estrada – e, levado a um contexto religioso, faz menção ao percurso que os adeptos ao Islamismo devem percorrer para encontrar o caminho de Allah. Ainda que o significado espiritual possa ser transposto para o filme, o diretor Óliver Laxe prefere se ater à semântica ao indicar, desde o princípio, a apoteótica e profunda jornada que cada um dos personagens irá enfrentar. Coassinando o roteiro ao lado de Santiago Fillol, Laxe mergulha na psique humana de maneira crua e visceral, não poupando esforços para tornar uma simples road trip em uma apocalíptica sucessão de eventos que culmina em letargia e complacência.

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O cineasta trata o projeto com uma moralizante necessidade de navegar entre uma experiência individualizada, por assim dizer – seja na busca de Luis pela filha, seja no objetivo dos ravers em chegar à outra festa -, e uma universalidade brutal que dialoga com a insanidade do hoje. Para isso, ele se vale de um compilado de tragédias que arranca o melhor de seu elenco, com destaque à marcante atuação de López, e sem se valer de uma violência gratuita ou romantizada: pelo contrário, a ausência e a efemeridade da existência são tão rompantes aqui que nos causam um choque duradouro sem nos deixar enojados ou frustrados.

Laxe também encontra sucesso em transformar o infinito e temeroso deserto de Marrocos em um labirinto sem fim, um trajeto epopeico que não mostra que, mesmo em meio ao comportamento autodestrutivo e efusivo do ser humano, a natureza triunfa e subjuga qualquer um ao seu poder – e, mais uma vez, a comoção que se apodera do improvável grupo é diluída pelas batidas da música eletrônica e de um consecutivo comportamento evasivo e quase dissociativo. O caminho, dessa maneira, não pode ser encontrado, mas está à vista de todos esperando para ser descoberto em meio a uma realidade agressiva e cruel.

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Essa prisão sem grades que consome os personagens pouco a pouco é reafirmada pelo trabalho primoroso de Mauro Herce. Assinando a fotografia, Herce garante que cada enquadramento seja um arauto memorialístico de um legado que não tem mais espaço em meio à iminente desesperança e à inevitabilidade da única verdade do mundo – a morte. Os movimentos de expansão e contração da narrativa se destinam aos movimentos de câmera que ressoam estéticas documentárias, deixando a atmosfera ainda mais crível e permitindo que o público, de fato, mergulhe nessa história.

Com sessões na 49ª Mostra de São Paulo, ‘Sirât’ é um poderoso drama que, à medida que abre espaço para comentários sociopolíticos e convida à reflexão do que significa existir em meio ao nada, reafirma sua brutal beleza – mantendo o público vidrado ao longo de suas quase duas horas.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.