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Crítica | ‘O Apego’ – Retrato sensível sobre perdas e encontros que logo vira um livro aberto de emoções [Festival de Cinema Francês do Brasil]


É tão bom nos deparamos com uma obra profunda, ao mesmo tempo sensível e inquietante, que nos faz pensar sobre nós e o nosso papel no mundo quando somos convidados a ouvir mais do que dizer. Selecionado para a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil 2025, o longa-metragem O Apego é uma jornada de emoções que vai direto ao ponto de seu discurso, avançando para um desenvolvimento que equilibra as facetas do distanciamento emocional, da perda e do desencanto, transformando uma história cheia de variáveis em um livro aberto de emoções.

Sandra (Valeria Bruni Tedeschi) é uma mulher solteira que vive seus dias dedicada ao trabalho como administradora de uma livraria. Um dia, sua vizinha da frente precisa que ela cuide de seu filho pequeno, Elliot, pois está em trabalho de parto e precisa ir ao hospital. Quando a vizinho morre durante o parto, o marido dela, Alex (Pio Marmaï), enfrenta a dor dessa perda, e Sandra passa a fazer cada vez mais parte dessa família, acompanhado situações pelos meses que se seguem após o ocorrido.



Dirigido pela parisiense Carine Tardieu e baseado na obra L’Intimité, de Alice Ferney, o filme apresenta uma narrativa que consegue se posicionar entre o dito e o sentido, traduzindo o interior dos personagens e suas emoções conflitantes. Consegue chegar em pontos de rasgar o coração com uma leveza poética pronta para distribuir reflexões ligadas às complexidades do desamor.

Explorando dicotomias – de forma muito mais profunda do que as obviedades entre a vida e a morte – por meio de relações de afeto e das surpresas nas interações que surgem quando menos esperamos, o filme também mostra como os pequenos gestos podem iniciar a construção de um recomeçar. Um ponto chama a atenção e se torna o elo que amarra os temas e desenvolve personagens de forma certeira: a troca de perspectivas constante, uma sacada simples que funciona como uma luva e oferece um bom ritmo à narrativa.

Há muitas formas de enxergar O Apego – e isso é mais um mérito. Um recorte maduro sobre o amadurecer e o reprender após uma tragédia, os desenrolares nas expectativas e olhares para o mundo. Qualquer ponto que te fisgar vai desembarcar na certeza que é normal haver desamor, mas que isso pode mudar a qualquer momento – faz parte da vida. Essa facilidade de conversar com a realidade, aproxima o público.

Na trilha sonora, a belíssima canção brasileira Você Abusou, de Antônio Carlos e Jocafi – uma das canções brasileiras mais famosas fora do Brasil – dá o toque final, uma surpreendente cereja do bolo, a uma obra marcante e que vai provocar o desejo de encontros para longas conversas.

Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.
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