Exibido no Festival de Sundance, o longa-metragem argentino O Lago da Perdição é um compilado da fragilidade humana rumo a um conflito existencial. Confuso? Não há outra forma de explicar. É impressionante como em 90 minutos de projeção, somos apresentados a uma história muitas vezes ‘sem pé nem cabeça’, em que a violência ganha destaque em vez de se aprofundar nos conflitos vividos pelas personagens. A contextualização que se propõe só se torna compreensível ao ler a sinopse. Em resumo: Um naufrágio sangrento de uma premissa promissora onde não paramos de olhar para o relógio.
Selecionado também para o Festival do Rio 2025, o projeto busca uma interseção entre um momento conturbado argentino de duas décadas atrás – economicamente falando, algo que persiste até hoje – e as aventuras pela feitiçaria de uma protagonista com sede de vingança, já que seu grande amor está com os olhos em outras direções. Abordando o sobrenatural através do desejo – e aquelas incansáveis e piegas bolhas do ciúmes -, vai se construindo uma narrativa espaçada que acredita que o chocar apresenta a solução.

Ambientado no início dos anos 2000, na periferia de Buenos Aires, encontramos três amigas inseparáveis que adoram se reunir durante o verão num lago próximo. Uma delas é uma adolescente perdida no seu cotidiano, sem almejar nada para um futuro próximo tomada por uma paixão avassaladora por um garoto que conhece desde a infância. Quando uma mulher mais velha se junta a esse grupo e desperta o interesse no crush da protagonista, coisas sinistras começam a acontecer.

Dirigido por Laura Casabe e com roteiro assinado por Mariana Enriquez e Benjamín Naishtat, O Lago da Perdição e seu ritmo lento apresenta o terror partindo da complexidade do ciúmes – algo que, de alguma forma, é próximo de todos nós. Em cena, percebemos uma necessidade de maximizar esse sentimento – nada é sutil – seja numa direção de arte que apresenta uma atmosfera sombria, ou no raio-x emocional que se desenvolve em ações da personagem principal. No entanto, os elos dessas correntes até o clímax se desprende da premissa, muito por uma contextualização superficial e coadjuvantes que não somam a todo esse universo construído.

Sem muito desenvolvido nas camadas superficiais que se apresentam, os holofotes se jogam para a violência. É cena de sangue pra todo lado. Essa tentativa de usar o chocar para ampliar o entendimento da inconsequência vira um condensado de situações que arregalam os olhos, mas que, em seu conteúdo, não apresenta consistência para alcançar reflexões mais profundas. Uma decepção.
