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Crítica | O Pai da Rita – Aílton Graça, Chico Buarque e Wilson Rabelo disputam Paternidade em Comédia Nacional


Diz a canção “A Rita levou meu sorriso/ no sorriso dela/ Meu assunto/ levou junto com ela/ E o que me é de direito/ Arrancou-me do peito/ E tem mais/ Levou seu retrato/ Seu trapo/ Seu prato/ Que papel!/ Uma imagem de São Francisco/ E um bom disco de Noel”. Essa canção de Chico Buarque, lançada em 1966, ainda hoje é uma das mais cantadas nas rodas de samba mundo afora, talvez porque, além do ótimo ritmo, sua letra conta basicamente a história de uma mulher que abandonou um homem e levou consigo absolutamente tudo, deixando-o sozinho com um vazio no peito. E a icônica história dessa canção chega essa semana às salas de cinema brasileiras através da comédia nacionalO Pai da Rita’.

Pudim (Aílton Graça) e Roque (Wilson Rabelo) são dois melhores amigos que há décadas compõem sambas junto, fazendo parte, inclusive, da diretoria do Grêmio Recreativo, Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai no bairro do Bixiga, em São Paulo, onde sempre moraram. Os dois escrevem juntos, moram juntos, dividem a sala (que é o quarto, onde alternam o sono quando o outro quer levar uma mulher) e compartilham muitas experiências de tantos anos de samba, desde os áureos tempos. Tempos esses que andam sob ameaça, com a chegada da nova geração de sambistas na escola. Enquanto os dois vivem da nostalgia, Pudim não para de sofrer, ainda hoje, pela perda de seu grande amor: Rita. Porém, quando ele sofre um infarto e conhece no hospital uma jovem (Jéssica Barbosa) que é a cara da sua Ritinha, ele começa a desconfiar que pode ser o pai dela. O problema é que ele não é o único a pensar isso.



Baseado na canção de Chico Buarque e com abertura e encerramento com uma animada roda de samba, ‘O Pai da Rita’ deixa evidente que seu recado é fazer um retrato sobre o gênero musical, mesmo que para isso lance mão da ficção de modo a construir personagens para conduzirem a história da letra. Esse é, evidentemente, um dos principais pontos do longa de Joel Zito Araújo, conjuntamente com o fato de ter o elenco todo negro, que conta ainda com os trabalhos de Elisa Lucinda, como a prostituta Neide, em mais um ótimo trabalho da atriz; e a incrível Léa Garcia como Tia Neguita, a qual muitas vezes apenas um olhar é suficiente para transmitir a fala.

Algumas cenas deslocadas, entretanto, podem causar confusão no espectador, como a piada sobre fio terra de Macaxeira, que não acrescenta em nada na trama, ou o desprezo da filha de Neide pela mãe e por Pudim, que não é nem explicado e nem resolvido no longa. Esses elementos soltos não são suficientes para tirar o brilho da festa que é ver Aílton Graça em toda a sua graça (com o perdão do trocadilho) estrelando um longa que ele leva com muita desenvoltura, proferindo falas tão espontâneas que imediatamente arrancam o riso de quem assiste ao filme.

Com o elenco certo e personagens cativantes, em um cenário dominado pelo universo carioca ‘O Pai da Rita’ celebra o samba paulistano em suas múltiplas facetas, e ainda nos faz sorrir. Para assistir e ir em seguida com os amigos para o bar.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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