No início dos anos 2000, um adolescente da cidade de Guaratuba, no Paraná, teve seus primeiros contatos com o novo mundo da internet, que se abria de maneira desenfreada e com todo tipo de possibilidade. Dali pra frente, uma série de ações desenfreadas, impulsionada pelo conhecimento que se ampliava, revelou ao mundo um dos maiores hackers do Brasil.
Escancarando ótimos debates sobre a ética e a moral, a partir de um protagonista controverso e prepotente – que rompe qualquer ambiguidade moral – o projeto O Rei da Internet aposta no dinamismo com uma acertada linguagem pop. Dirigido por Fabrício Bittar e protagonizado pelo ator João Guilherme, o projeto, entre outros pontos positivos, utiliza metáforas instigantes – ligadas principalmente às questões emocionais – que contornam a narrativa de maneira criativa, ampliando seus horizontes e abrindo camadas de forma equilibrada, sem perder o ritmo.

Daniel (João Guilherme) é um jovem estudante que passa seu tempo preso a uma rotina de bullying no colégio e à rigidez que seu pai impunha em casa. Quando descobre o fascinante mundo da computação, investindo tempo em fóruns, invasões e mecanismos hackers, seu universo, antes limitado, desperta para possibilidades sem limites – entrando de cabeça em um mundo sem volta. Quando seus feitos ganham visibilidade, ele passa a entregar uma quadrilha criminosa, comandada por Fábio (Marcelo Serrado), especializada em roubos virtuais.

Baseado em uma história real, com suas devidas licenças poéticas para ajudar a narrativa, o roteiro consegue lapidar um contexto de uma época, antes do avanço na segurança digital, quando a internet ainda era uma estrada praticamente sem semáforos e desprotegidas de leis mais severas, e mesclar ao desenvolvimento de seu protagonista. A narrativa utiliza um personagem narrador que acaba encaixando como uma luva, dando um ar de autenticidade e subjetividade, que amarra os conflitos emocionais e modela a complexidade de sua personalidade.
Do bullying nos tempos escolares à necessidade de reconhecimento, vamos percorrendo um recorte profundo na mente de jovem ambicioso e imaturo que, de alguma forma, reflete uma juventude atemporal que não consegue estabelecer limites. Com um mundo novo que se abre em sua frente – repletos de inconsequências e descontrole, com muito sexo, drogas e crimes virtuais – vai se moldando um retrato impressionante de um jovem criminoso.
Com muitos detalhes colocados em tela, em uma trajetória de vida intensa – e antes dos 18 anos -, esse filme brasileiro se arrisca na minutagem, que passa das duas horas. Isso pode deixar o circuito exibidor apreensivo, mas, como obra, é fundamental para lapidar uma história que merece ser contada no máximo de detalhes. Um dos grandes acertos do projeto!
Há também uma ótima sacada quando nomes famosos – de empresas ou conhecidos da mídia – não podem ser mencionados: usa-se uma ironia fina e até certo ponto debochada, que conversa com a proposta da linguagem. As caricaturas propostas, como a do criminoso Fabio, que se revela um verdadeiro ‘poderoso chefão’, também funcionam.

No rastro do deboche afiado, sobra até pra mídia sensacionalista de décadas atrás, e uma inteligente exposição do sistema e da corrupção policial. O importante destrinchar da inconsequência ganha espaço no arco final, com a chegada na história da Polícia federal e a primeira grande operação sobre crimes virtuais. Pena que não sobra tempo para um olhar mais detalhado para a questão.
O Rei da Internet empolga e surpreende mergulhando em uma história que merecia um filme, sem deixar de, no campo moral, introduzir críticas pertinentes.


