Crítica | O Rei da Internet – João Guilherme BRILHA Como Maior Hacker de História Real Brasileira

Não é só a gringa que tem histórias mirabolantes, baseadas em eventos reais, de true crime absurdas. O Brasil também tem histórias que davam um bom filme (igual acontece lá fora). Histórias surreais demais para a gente acreditar que são verdade, mas são. Como a história do maior hacker desse país – um moleque de 14 anos – que causou um prejuízo financeiro e um rombo na segurança das maiores empresas do Brasil. Se você não sabe quem é ou não lembra, então você precisa ver ‘O Rei da Internet’, que já está em exibição nos cinemas nacionais.

O rei da internet

Daniel (João Guilherme, de ‘De Volta aos 15’) é um jovem de quatorze anos como qualquer outro: meio feio, meio sem graça, espinhento, sem amigos e que sofre bullying na escola. Só que um dia, em 2005, ele teve contato com uma máquina que mudaria sua vida (e de tantos outros adolescentes da época): um computador. Mais especificamente: a internet. E como tantos outros adolescentes entediados e com raiva da sociedade, Daniel encontrou na terra de ninguém da internet o lugar certo para desenvolver suas habilidades, digamos assim, investigativas. Aos poucos ele foi fuxicando, se interessando e, posteriormente, hackeando sistemas operacionais, de segurança e sites de grandes empresas, roubando dados dos usuários. Rapidamente, isso chamou a atenção de outros experts do assunto, e, em pouco tempo, Daniel foi trabalhar no esquema de Fábio (Marcelo Serrado, de ‘Crô’), um contraventor especializando em lavagem de dinheiro. A partir daí, DN (username de Daniel) passa a desfrutar de uma vida de muitos privilégios, bebidas, drogas, carrões, mulheres e muito, muito dinheiro.

Muito antes de toda essa onda de influencers, reality shows e produtores de conteúdo digital, as chances de um adolescente vindo de uma família classe média padrão em uma cidade de interior mudar de vida e se tornar milionário eram ínfimas, a não ser que, claro, estivesse metido em algo de errado. Era o caso de Daniel, mas, como qualquer adolescente, ele não queria, não conseguia enxergar esse “lado errado” das coisas pois a tentação e a possibilidade de viver a vida dos sonhos era muito maior do que qualquer bom-senso. E em 2005, acreditem, nem todo mundo tinha computador em casa, internet banda larga ou um celular que fizesse tudo.

É esse o impacto que o roteiro de Fabrício Bittar e Vinícius Perez faz: constrói aquele senso de urgência juvenil que parece que a vida vai acabar amanhã e tudo precisa ser vivido hoje. Mais ainda: constrói uma atmosfera que, por mais que saibamos que tudo aquilo que o protagonista está fazendo é errado, o espectador tem dificuldades de julgar o moleque, afinal, é só um moleque classe-média fazendo bobagem. De uma maneira invertida, está tirando dos bancos para “redistribuir a renda” a quem está precisando.

Além de tudo, o roteiro é dinâmico, ágil, e por mais que às vezes a narração em off dê uma cansada, o roteiro está sempre conduzindo pra frente a história, criando conexões com o nosso presente (2026), lembrando que vinte anos trás as coisas eram de outra maneira e sinalizando para uma edição versátil, cheia de referências ao mundo cibernético, e uma montagem frenética, que transpira o frenesi daquele universo. É um ótimo roteiro, ótimo! E que casa também muito bem com a direção do mesmo Fabrício Bittar, super atenta em realçar as emoções do protagonista e ambientar o espectador naquele universo a la ‘Lobo de Wall Street’ que o jovem Daniel mergulha sem medo.

O elenco todo está muito bem, com destaque, óbvio para João Guilherme – que, ainda que cause certo estranhamento ele, com mais de 20, interpretando um garoto de 14, João Guilherme faz tão bem, que, ainda que nosso cérebro nos lembre essa informação o tempo todo, é impossível não acreditar no que estamos assistindo, tamanho o talento do rapaz. Um grande acerto a elencagem dele para o protagonismo.

Com a mesma energia caótica de filmes como ‘Bingo – O Rei das Manhãs’, ‘O Rei da Internet’ tem tudo para levar uma multidão de jovens que se identificam com os sentimentos de Daniel e se tornar um novo clássico do cinema pop brasileiro contemporâneo. Um filme viciante do início ao fim e que deixa o julgamento da história para o público: afinal, o crime compensa?

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.