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Crítica | ‘O Rei’ é um épico de guerra que funciona melhor como drama histórico


Dramas de época sempre tiveram um poder inenarrável de conquistar o coração do público e, até hoje, configuram-se como pequenos escapes históricos para os quais podemos fugir e encarnar a pele de personagens icônicos em épocas que já passaram. Ainda que os blockbusters tenham dominado o cinema das últimas duas décadas, os filmes do gênero em questão continuam a reclamar por seu espaço nessa gigantesca indústria – e talvez tenha sido pelo que a Netflix buscava com o anúncio de O Rei, uma nova perspectiva da medievalista jornada de um dos regentes mais controversos da História, Henrique V.

O diretor David Michôd não é nenhum estranho a longas-metragens que tenham como pano de fundo principal a mescla entre o dramático e o épico – no sentido contemporâneo dos textos. Tendo comandado projetos como o futurista ‘The Rover – A Caçada’ e a tragicomédia Máquina de Guerra, é certo dizer que esperávamos algo satisfatório, ainda que limitado às restrições que o próprio cineasta imprimisse às suas obras. E foi exatamente o que recebemos: o filme é carregado por um elenco de peso, mas estende-se ao longo de extenuantes 140 minutos que falham em conquistar as variações rítmicas necessárias para uma narrativa deste tipo. No final das contas, o belíssimo cenário do século XV cede a estruturações intimistas e claustrofóbicas demais para nos envolver, apesar de abrir espaço para uma incrível performance do jovem Timothée Chalamet.



Aqui, Chalamet dá vida ao personagem-titular, que ascende ao trono inglês após a morte do pai e do irmão. Antes conhecido como Hal, o regente britânico condenava as desnecessárias táticas bélicas do pai, o atual comandante do país, e o comportamento mimado e inexperiente de Thomas, o caçula da família. Essa é a real causa de Hal ter se recuado na bebida e preferido a companhia de seu amigo ex-veterano de guerra John Falstaff (Joel Edgerton) no condado de Eastcheap. Entretanto, sua plácida e promíscua vida muda bruscamente quando ele se impõe para tentar salvar o irmão e acaba desencadeando um efeito dominó que o ascende à coroa, desagradando boa parte do clero e da nobreza que não faziam nada além de menosprezar as habilidades do jovem.

Ao longo da trama, fica claro que Hal é adepto a uma visão mais pacifista, mas o restante de seu séquito condena essa visão utópica demais para o momento em que vivem. Na verdade, muitos passam a condenar a reputação do rei, discorrendo acerca de sua personalidade complacente demais para alguém que carrega tamanho peso nas costas: é interessante observar que o roteiro, assinado também por Michôd e Edgerton, arquiteta uma série de obstáculos a serem enfrentados pelo protagonista, colocando em xeque suas ideologias em detrimento (ou talvez em prol) de permitir que ele alcance o que realmente deseja.

O longa é conduzido com maestria, pelo menos no tocante aos primeiros atos: o diretor se alia a uma fotografia que revela seus ares contemplativos logo na sequência de abertura, ambientada no centro do campo de batalha. A contraposição constante de uma trilha sonora linear, uma tensa atmosfera e a vivacidade de uma brilhante paleta de cores, chegando até a premeditar a sobriedade desconstruída da qual a obra tratará; porém, Michôd não consegue sustentar suas investidas estéticas e técnicas por muito tempo, tentando expandir um único núcleo narrativo que poderia facilmente ser concluído em menos tempo e de uma forma mais coesa e minuciosa, por assim dizer.

De fato, é o elenco que carrega todo o peso dramático da obra: enquanto Chalamet se afasta de todos os seus papéis anteriores (como os vistos em Me Chame Pelo Seu Nome e Lady Bird), encarnando o brutal cansaço físico de Henrique V e de suas ambições condenáveis, Edgerton também se mostra irreconhecível como o braço-direito Falstaff que, apesar de sua importância para a trama, é inexplicavelmente esquecido em breves momentos. Sean Harris também contribui para uma performance memorável como o Ministro da Justiça William – o personagem com o arco mais bem construído de todos e com uma reviravolta chocante nos momentos finais do filme; Robert Pattinson, que faz uma aparição breve como o Delfim da França, apesar de estar irreconhecível assim como seus colegas, posta-se dentro de uma esfera caricata demais para ser levada a sério.

Num aspecto mais geral, o situacionismo histórico é, de longe, o ponto alto da produção, seja com os diálogos bem construídos e carregados de didáticas metáforas beligerantes, seja com os picos e os declives incrustados na trama principal. Com a chegada do suposto clímax, a perspectiva cênica volta-se para a guerra (o que é natural, visto que estamos dentro desse gênero), e é nesse momento que o equilíbrio de forças volta a se perder: as construções imagéticas são confusas e entediantes demais, postas literalmente no meio da lama e optando por closes e big-closes incompreensíveis, porventura almejando a uma reinvenção estrutural que nunca encontra completude.

O Rei, em suma, é aprazível dentro das fronteiras que cria. Na verdade, é bem claro como o longa se vale muito de visões românticas, as quais são auxiliadas pela literariedade musical, pelos slow-motions excessivos e pelas explosões catárticas dos protagonistas e coadjuvantes. O mérito não se perde quando as partes são analisadas separadamente, mas dá uma sensação inacabada quando justapostas.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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