A transição entre o fim da infância e o início da vida adulta implica me muitas escolhas e desafios. O jovem muitas vezes precisa abrir mão de festas e diversões para se dedicar a um emprego ou estágio, considerar sair da casa dos pais e bancar as próprias contas, encontrar meios próprios para se desenvolver na vida. Essas escolhas, em bora parte dos casos, também implica em abrir mão de certos privilégios em prol de um objetivo maior. De todo modo, são escolhas, e fazê-las é sinal de amadurecimento. Esse é fio condutor de ‘O Velho Fusca’, novo longa brasileiro já em cartaz no circuito exibidor.

Junior (Caio Manhente, de ‘Tudo Por um Pop Star 2’) é um jovem rapaz que acredita que um carro define o caráter de uma pessoa, e, por isso, está convicto de que se tivesse seu próprio automóvel, seria uma pessoa muito mais bem resolvida – ainda mais agora, que está prestes a se mudar para outra cidade. Mas como querer não é poder, ele vive sua vidinha resignado, enquanto aguenta desaforos do chefe, Jeff (Christian Malheiros, de ‘Assalto à Brasileira’), dono de um restaurante onde Junior lava pratos e onde também trabalha com a bela Laila (Giovanna Chaves, de ‘Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo’), por quem tem um crush. Sem nenhuma autoestima, Junior acredita que se convencer seu avô (Tonico Pereira, de ‘O Palhaço’) a lhe dar seu fusca 1976, ele conseguirá dar a volta por cima na vida. Porém, para isso, precisa convencer seus pais (Danton Mello, de ‘Mãe Fora da Caixa’ e Cleo Pires, de ‘Me Tira da Mira’) a voltar a falar com o avô.
Partindo de um argumento em desuso nos dias de hoje (a de que um carro define o homem e conquista mulheres), ‘O Velho Fusca’ busca dialogar com os anseios juvenis contemporâneos, mas utiliza-se de valores datados que não correspondem, em sua maioria, ao pensamento dos jovens de hoje. Portanto, já na apresentação o tema gera uma confusão no espectador, afinal, que jovem hoje em dia tem poder aquisitivo para comprar um carro? Ou, mais ainda, de pedir/exigir um carro de um parente, mesmo que este esteja em desuso?
Com argumentos frágeis, o roteiro tece situações controversas que também causam desconforto, principalmente na construção dos antagonistas do protagonista: um chefe abusivo (e o é porque disputa a garota com o protagonista) e o avô mal-educado, que, por ser de um outro tempo, profere desaforos a torto e a direito, doa a quem doer. Esses dois personagens parecem ter seus backgrounds construídos sem uma base, cabendo ao espectador aceitá-los como são. E aí complica, já que ambos são um tanto quanto agressivos no trato. Sem contar os pais do protagonista, que só ficam em casa o tempo todo, sendo a mãe com função única de servir os pratos do jantar e o pai de ficar sentado em frente à tv. Faltou criatividade aqui.

Ainda assim, ‘O Velho Fusca’ tem um bom valor de produção e não se faz de modesta, com locações na Barra da Tijuca, na Urca, no Centro e em um casarão perto da floresta, com filmagens externas e um grande elenco que topou o projeto.
‘O Velho Fusca’ traz uma estética bonita, praiana, cheia de filtro que embeleza a carioquice como pano de fundo do filme e que, a partir do choque direcional, busca encontrar um equilíbrio entre três gerações diferentes conectadas através de um carro que é símbolo nacional.


