Crítica | Okja – produção Netflix de prestígio, saída de Cannes, estreia na plataforma



E.T. Ecológico

A estrutura de roteiro de Okja, produção original Netflix de grande renome, estreando diretamente em Cannes, o maior festival de cinema do mundo, não é novidade. De fato, Steven Spielberg havia criado a mesma história em 1982, com E.T. – O Extraterrestre. Nas duas tramas, temos uma inusitada criatura, que desenvolve grandes laços afetivos com uma criança. Um tempo depois, capturada a criatura, a tal criança(s) parte para o seu resgate.

O que diferencia, e muito, Okja é seu forte teor ecológico politicamente correto, e seus personagens excêntricos e propositalmente exagerados. Escrito e dirigido pelo sul coreano Bong Joon-ho, visionário cineasta de algumas das mais criativas e impressionantes obras do cinema recente, vide O Hospedeiro (2006) e Expresso do Amanhã (2013), o roteiro não traz um ser alienígena, mas sim uma raça de superporco geneticamente criada em laboratório.

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Na trama, uma mega corporação, visando pôr fim na fome mundial, de uma maneira extremamente ecológica – e lucrar rios de dinheiro em cima da ideia (por que não?) – encontra uma nova espécie de porco e a multiplica seis vezes, distribuindo-os entre seis fazendeiros de locais distintos do mundo, para, numa espécie de concurso, dez anos depois analisar qual dentre eles conseguiu desenvolver o animal mais perfeito. Tal criatura, semelhante a um hipopótamo, é a definição de ecologicamente amigável, deixando mínimo impacto no meio ambiente – como pegadas e excrementos.

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Um dos fazendeiros que recebe a oportunidade é Hee Bong (Byun Hee-Bong), ele vive afastado da cidade com sua netinha Mija (Ahn Seo-Hyun). A menina de cara desenvolve grande afeto pelo bebê a quem batiza de Okja. Dez anos depois e Okja já faz parte da família. A separação inevitável enfim chega, já que o propósito do animal está longe de ser o de estimação. Assim, Mija, a protagonista, parte numa longa jornada em busca de sua amiga, no caminho se deparando com todo tipo de pessoa e situação, desde ambiciosas empresárias (Tilda Swinton, em papel duplo), apresentadores de programa de animais (Jake Gyllenhaal) e ecoterroristas dispostos a ajudá-la, encabeçados pelo personagem de Paul Dano.

Na parte das atuações, quem se destaca são justamente Paul Dano, em uma interpretação austera e muito honesta, e a debutante Seo-Hyun, que ganha instantaneamente por sua graça e carisma. No contraponto da corrente estão Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal, com personagens tão caricatos que parecem saídos diretamente de um cartoon. Na verdade, o desejo era esse, aproximando-os de personagens coloridos e chamativos que costumamos ver em produções asiáticas, sejam elas em live-action ou animadas. Tal caricatura é muito utilizada pelas artes do continente. No quesito, quem se sai melhor é Swinton, já acostumada a viver personagens do tipo em grande parte de suas atuações. Gyllenhaal tenta dar forma a seu afetado apresentador, sem conseguir encontrar um uníssono para ele.

Apesar de fazer muito bem seu papel como crítica ferrenha à indústria de carnes, inclusive inserindo um daqueles vídeos que nos mostram o sofrimento de bois e vacas ao serem preparados para o abate – e que já fez muitos aderirem ao vegetarianismo – Okja vai além. Sua ideia insana tem o respaldo de um bom roteiro, ganhando credibilidade ao saber lidar com emoções e transcrever perfeitamente o sentimento de amizade. A criatura Okja, confeccionada através de efeitos de computador (por vezes não tão convincentes), ganha peso e se torna um personagem tão especial e querido quanto o boneco animatrônico do citado filme de Spielberg da década de 1980. É impossível não se emocionar. Okja é o filme do ano, ao menos na plataforma Netflix.

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