Crítica | Olivia Wilde entrega uma AFIADA comédia dramática com a inebriante experiência de ‘O Convite’

Depois de ganhar reconhecimento como atriz por seu trabalho na série médica ‘House’, Olivia Wilde resolveu tomar as rédeas das próprias pulsões artísticas e se aventurou no mundo atrás das câmeras – fazendo uma gloriosa estreia com a dramédia coming-of-age Fora de Série, que se tornou um clássico instantâneo do gênero e conquistou a crítica e o público ao redor do mundo. Pouco depois, a cineasta embarcou em um ambicioso projeto, o thriller ‘Não Se Preocupe, Querida’, que, apesar das boas intenções, não foi tão recebido e abarcou certas polêmicas de bastidores que poderiam ter manchado sua carreira de maneira definitiva.

Felizmente, Wilde deu a volta por cima e encabeçou um dos melhores longas-metragens do ano, a comédia dramática O Convite, que chegou há algumas semanas aos cinemas nacionais e que nos convidou para um quase fabulesco conto sexual que trouxe às telonas talentos inegáveis e um comprometimento criativo de tirar o fôlego. Apresentando um intrincado quarteto de complexos personagens que estão dentro de um barril de pólvora prestes a explodir, a diretora supera todas as expectativas com um dos filmes mais inesperados e humanos de 2026 com uma potência indescritível e uma afirmação clara de que ainda tem muito a nos contar.

Funcionando como um remake do aclamado filme espanhol Sentimental, mas sem se destituir de uma identidade própria, a trama é centrada em Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde), um casal que passa a maior parte do tempo discutindo sobre tudo – desde a recém-finalizada reforma do apartamento até a falta de compreensão que um sente pelo outro. Assim que chega em casa, Joe descobre que Angela convidou os vizinhos de cima para um jantar, com o pretexto de conhecê-los melhor e pedir desculpas pelas intercorrências da reforma. Porém, Joe nutre de uma certa desafeição pelo casal, principalmente pelo fato de todas as relações sexuais que eles têm serem muito barulhentas.

Em meio a mais brigas pela total ausência de comunicação, Pína (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) batem à porta deles, sendo recebidos com uma energia estranha que oscila entre a vergonha e o desacolhimento. Angela tenta manter a máscara de uma boa anfitriã, mesmo despreparada para recebê-los, ao passo que tenta desviar dos ácidos comentários de Joe sobre a presença do casal – em especial de Hawk, que parece lhe causar desconforto em virtude de uma contundente honestidade. Todavia, as coisas viram de cabeça para baixo quando Pína e Hawk os convidam para uma noite de orgia, dando espaço para revelações inesperadas e um turbilhão de emoções que há muito estava enterrado.

A estrutura da obra bebe de vários outros projetos que partem da premissa se restringir o escopo cênico a um número finito de personagens – isto é, concentrado em um pequeno núcleo, sem coadjuvantes ou extras. Dessa maneira, referências a títulos como ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, ‘Deus da Carnificina’ e ‘The Boys in the Band’ são constantes no desenrolar da narrativa, trazendo Pína e Hawk como catalisadores dos problemas não resolvidos entre Joe e Angela, principalmente a frustração sexual que se abate sobre os dois e ganha um prospecto repentino com o convite.

Logo, não é surpresa que o roteiro coassinado por Will McCormack e Rashida Jones mergulhe numa verborragia interminável que recua para um pungente silêncio à medida que o clímax do terceiro ato é diluído para consequências derradeiras e uma percepção melancólica de que, às vezes, a decisão mais difícil é a única certa a ser tomada. Mais do que isso, a dupla sabe como trabalhar com um diabólico e delicioso sarcasmo que transforma essa peculiar experiência em uma reflexão universal de questionamentos e quebras de tabu que nos acompanham a vida inteira – principalmente em um momento de enorme tensão social onde a individualidade se transmuta em uma faca de dois gumes.

Wilde atinge um amadurecimento artístico invejável com o projeto, embebendo cada um dos personagens em uma sórdida e proposital melancolia que é mascarada pela “política da boa vizinhança”, ao mesmo tempo que os impede de se conectarem uns com os outros. Utilizando constantemente o reflexo dos espelhos como elemento simbólico dos sentimentos que vêm escondendo, a diretora transforma o constrito apartamento em um interminável labirinto de emoções – e se apoia na despojada trilha sonora de Devonté Hynes e na elegante fotografia de Adam Newport-Berra para firmar um palco caótico e inebriante do começo ao fim.

O destaque também vai para a fabulosa performance do elenco, com menção à montanha-russa que cada um dos personagens nos convida: Wilde e Rogen nutrem de uma química espetacular ao entrarem em conflito constante que, de certa maneira, antecipa o “final feliz” de um casamento saturado, mas que pode ser salvo; Cruz e Norton, por sua vez, são imbuídos com uma atmosfera de “superioridade espiritual” que traz leveza e sabedoria a uma relação que foge dos convencionalismo e que, por essa razão, funciona até mais do que deveria.

O Convite é uma das grandes surpresas do ano e, mantendo-se no mesmo nível de alta qualidade da produção original, nos chama a atenção pela originalidade da trama e pela forma como navega pelas complexidades do ser humano enquanto agente social – neste caso, como peões de um tabuleiro de xadrez que traz reflexões sobre liberdade e sobre frustração.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.